“Piracema”, estreia do Grupo Corpo no ano do cinquentenário, está na programação oficial do 34º Festival de Curitiba

O Festival de Curitiba divulgou a programação oficial de sua 34ª edição e, no meio de tantos anúncios que fazem a gente querer marcar tudo na agenda, tem um daqueles nomes que chegam com peso de acontecimento: o Grupo Corpo vem aí com “Piracema”, novo espetáculo que celebra os 50 anos da companhia mineira e, ao mesmo tempo, aponta pra frente.

Festival de Curitiba - Piracema - Foto: Cristina Castilho
Piracema – Foto: Cristina Castilho

“Piracema” carrega uma imagem forte já no título e não é metáfora fácil. No Tupi, “pira” é peixe e “cema” é subir. Piracema é o movimento dos cardumes que enfrentam a correnteza rio acima para chegar ao local da desova. É esforço, instinto, repetição e recomeço. E faz todo sentido que o Grupo Corpo tenha escolhido essa ideia como símbolo de uma trajetória que, há cinco décadas, insiste em criar, recriar e resistir com uma brasilidade muito própria, daquelas que conversam com o mundo sem perder a origem.

A coreografia marca um encontro importante: Rodrigo Pederneiras (nome central na linguagem do Corpo) divide a criação com Cassi Abranches, que passa a ser também coreógrafa residente. E o processo de construção foi tudo, menos convencional: a companhia foi dividida em dois grupos de 11 bailarinos e cada coreógrafo criou e ensaiou “seu” balé de forma independente, com regras rígidas, sem circular pela área do outro grupo. Só depois as versões se encontraram. O resultado, segundo a própria equipe, virou uma obra “inteira”, quase como se dessa junção nascesse uma terceira via.

Na trilha, outra estreia que pesa: Clarice Assad assina a música inédita e faz um arco sonoro que vai do tribal e do natural “intocado” até o eletrônico urbano, passando por um momento mais sinfônico como se o balé atravessasse, em som, esse conflito (e essa convivência) entre natureza e tecnologia. Tem ainda um detalhe curioso e bem do nosso tempo: a compositora conta que, na terceira parte, incluiu ruídos e sons criados por inteligência artificial, compondo esse “quebra-cabeças” ao lado da companhia.

Festival de Curitiba - Piracema - Foto: Cristina Castilho
Piracema – Foto: Cristina Castilho

Visualmente, “Piracema” também brinca com a ideia de cardume. A cenografia de Paulo Pederneiras usa um material inusitado pra construir uma imagem de “escamas”: são 82 mil tampas de latas de sardinha aplicadas em rede, criando reflexos e textura no fundo do palco. A iluminação é assinada por ele em parceria com Gabriel Pederneiras. Nos figurinos, a criação é de Susana Bastos e Marcelo Alvarenga (Alva), e a proposta mistura conceitos de natureza e tecnologia com uma cartela que parte de tons terrosos e vai abrindo espaço para pratas, cores fortes e tecidos mais leves, conforme a atmosfera do balé se transforma.

No fim, a presença de “Piracema” na programação do Festival de Curitiba funciona quase como um recado: o Corpo chega aos 50 não pra “olhar pra trás com saudade”, mas pra subir a correnteza de novo com ousadia, renovação e uma teimosia bonita de continuar inventando.

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