Frankenstein no Oscar 2026: por que o filme de Guillermo del Toro virou um fenômeno

Guillermo del Toro sempre teve um tipo muito específico de “magia”: ele pega um mito que todo mundo acha que já conhece e devolve para o público como se fosse a primeira vez. Com Frankenstein, isso acontece em escala máxima. Frankenstein não é só mais uma releitura: é um filme que combina assinatura autoral, grandiosidade de produção e uma leitura emocional tão forte que, de repente, aquele monstro que a cultura pop transformou em caricatura volta a ser… gente.

Frankenstein no Oscar 2026 - Foto: Divulgação
Frankenstein no Oscar 2026 – Foto: Divulgação

E talvez esteja aí a chave do impacto. Na temporada do Oscar, Frankenstein entrou não como “filme de gênero” tentando furar bolhas, mas como um candidato completo, desses que a Academia costuma respeitar quando tudo funciona junto: mundo construído com obsessão, imagem pensada como pintura, som que respira a atmosfera, figurino e maquiagem que contam história sem precisar explicar, e uma trilha que não serve só de fundo, mas de coração batendo por trás do drama.

Por que Frankenstein virou “filme de Oscar” em 2026

Existe um padrão bem reconhecível quando um título entra no radar forte da Academia: ele precisa ter identidade. E del Toro é praticamente sinônimo disso. Aqui, ele adapta Shelley (1818) como um drama gótico movido por ciência, obsessão e culpa mas sem cair na tentação de tratar a Criatura como “atração” ou “ameaça de parque”. O filme insiste em um ponto que muda tudo: a Criatura não é um monstro no sentido fácil da palavra; ela é resultado, consequência e espelho.

Na leitura do diretor, o terror não nasce do “diferente”, e sim daquilo que a gente faz quando acha que tem direito de criar algo e depois abandona. A história, então, deixa de ser apenas “sobre um experimento que deu errado” e vira uma tragédia sobre o preço do ego: reputação, moral, amor, corpo e alma entram na conta.

Del Toro já resumiu a essência do filme com uma frase que virou chave de interpretação: “Love makes monsters of us all”, como se dissesse que o horror pode nascer do amor, da falta dele, do que a gente faz para merecê-lo ou para não perdê-lo. E Frankenstein funciona exatamente nesse fio: o afeto como motor e como desastre.

Frankenstein no Oscar 2026 - Foto: Divulgação
Frankenstein no Oscar 2026 – Foto: Divulgação

A adaptação de del Toro: o que muda no sentimento do mito

Victor Frankenstein aparece como um homem brilhante, mas perigosamente convencido de que inteligência é licença. Ele não é um vilão de bigode; é o tipo de pessoa que acredita que consegue controlar tudo, até a vida. Só que o filme faz questão de mostrar a parte que dói: o momento em que a criação deixa de ser teoria e vira presença.

E quando a Criatura entra em cena, a história muda de peso. O filme trabalha a rejeição, a violência e o isolamento como forças que moldam caráter e, ao mesmo tempo, se recusa a transformar isso em aula. É encenação. É corpo. É olhar. É silêncio. É aquela sensação de que a humanidade não é um dado automático: ela é construída (ou destruída) no modo como o mundo responde à sua existência.

O resultado é um Frankenstein que se aproxima mais de um melodrama vitoriano, só que carregando a assinatura do del Toro: romantismo sombrio, beleza mórbida, poesia de cemitério, uma delicadeza estranha habitando o horror.

Quem está no elenco

O filme se apoia num trio que já nasce com peso de premiação: Oscar Isaac assume Victor Frankenstein com a energia de alguém que parece sempre a dois passos do limite. Mia Goth, como Elizabeth, entra como peça central na engrenagem afetiva e social do enredo, não apenas “interesse romântico”, mas presença que expõe o custo humano da ambição. E a grande conversa do ano, claro, foi a Criatura: Jacob Elordi, que muita gente não imaginava nesse lugar, aparece como um corpo imenso e ao mesmo tempo vulnerável, com uma dor quase infantil por trás do que poderia ser só ameaça.

Frankenstein no Oscar 2026 - Foto: Divulgação
Frankenstein no Oscar 2026 – Foto: Divulgação

E tem um detalhe que ajudou a empurrar o longa para o território “prestígio”: Elordi entrou na conversa de performance com força suficiente para render indicação relevante, o que muda totalmente o tipo de campanha do filme. Quando um Frankenstein deixa de ser lembrado só por “maquiagem e arte” e vira assunto por atuação, ele muda de prateleira.

Ao redor desse núcleo, o longa ainda traz um elenco de apoio que sustenta a atmosfera com autoridade, aquele tipo de presença que, mesmo em poucas cenas, cria mundo, cria peso, cria medo ou cria compaixão.

O filme acompanha o processo de construção dessa obsessão: o fascínio pela anatomia, a crença na ciência como domínio, a necessidade de provar algo (para si e para o mundo), e a forma como a ambição vai se misturando com uma espécie de fé distorcida. A criação acontece não como vitória, mas como ponto de não retorno. E depois disso, tudo vira consequência.

A Criatura, por sua vez, passa por um ciclo cruel que del Toro filma como um processo de formação: ela aprende o mundo pela pancada, pelo desprezo e pela exclusão. E quando entende que existe, o que aparece não é só raiva, é uma pergunta. Uma cobrança existencial. Uma necessidade de sentido. E é nesse ponto que a história deixa de ser “sobre um experimento” e vira um duelo moral: não um duelo de força, mas de responsabilidade.

Frankenstein está disponível na Netflix no Brasil. E faz sentido que a plataforma esteja no centro desse lançamento, porque o filme foi tratado como evento, daqueles títulos que chegam com cara de “cinema grande”, mas com distribuição que coloca o público geral na mesma sala, ao mesmo tempo, sem depender de janela longa em cartaz.

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