(Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, estará no Festival de Curitiba 2026 e essa informação, sozinha, já entrega muito do tipo de experiência que vem aí. Não é uma montagem que “só adapta” José Saramago. É daquelas que encostam o romance no presente, sem delicadeza, e fazem a gente encarar o que acontece quando uma sociedade perde não apenas a visão, mas o básico: o senso de coletivo.

A frase que guia a obra original continua funcionando como aviso e como cutucão: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”.
A história parte de uma epidemia de cegueira que explode numa cidade: tudo começa com um homem que, no trânsito, fica cego de repente. Em seguida, o fenômeno se espalha e arrasta todo mundo para um estado de pânico. Só que o que vem depois é o que realmente interessa: quando as regras desmoronam, quem a gente vira? O que sobra da ética, da empatia, da ideia de comunidade?
No centro dessa distopia, as autoridades respondem com a lógica do controle: confinam os doentes em um manicômio, como se isolar o problema resolvesse tudo. Só que esse confinamento vira um laboratório cruel do comportamento humano. Em pouco tempo, o espaço expõe a fragilidade do pacto civilizatório e revela como o medo, quando assume o comando, reorganiza as relações por força, por fome, por domínio e por sobrevivência.
Saramago escolhe não dar nomes próprios aos personagens e isso nunca foi detalhe. É um jeito direto de dizer que aquela degradação não pertence a uma cidade específica. Pertence a qualquer sociedade que, sob pressão, normaliza a brutalidade.
A exceção que muda tudo é a Mulher do Médico, a única que mantém a visão. Ela atravessa o colapso como testemunha: vê a barbárie se instalar e, ao mesmo tempo, carrega o peso de continuar enxergando quando todo o resto cai numa cegueira “branca”. E tem algo de insuportável nisso: ver o mundo desabar e ainda assim ter que continuar escolhendo o que fazer com essa visão.
O romance carrega um tipo de lição no desfecho: depois do caos, a humanidade ganha uma segunda chance. O Galpão desloca o foco para um ponto anterior e bem mais incômodo. A montagem não parece interessada apenas em encenar o colapso ela cutuca a pergunta que vem antes de qualquer “segunda chance”: que escolha precisa acontecer para que um recomeço seja possível?
Essa chave faz a peça deixar de ser “só distopia” e virar comentário do agora. A cegueira ali não é só física: é social, política, afetiva. É a incapacidade (ou a recusa) de enxergar o outro.
A montagem quebra a quarta parede e chama pessoas para o palco. Elas são vendadas e passam a integrar a cena como novos grupos de cegos que chegam ao confinamento.
É um gesto simples e justamente por ser simples, é devastador. Porque, de repente, a ficção ganha corpos reais. A epidemia deixa de ser “história que você acompanha” e vira “situação que te engole”.
E isso muda o tom da experiência. Não é interatividade “bonitinha”. É convocação. O público é empurrado para dentro da pergunta moral do espetáculo.
O Galpão reafirma em cena uma marca histórica da companhia: criação coletiva. O elenco funciona como organismo e isso importa porque a peça fala exatamente sobre o que acontece quando o organismo social entra em falência.
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