Crítica: O Caso dos Estrangeiros é um soco no estômago e lembra que crise de refugiados não é “assunto novo”

Eu posso até ser suspeito para falar de O Caso dos Estrangeiros. Eu gosto de história, gosto de geopolítica e acompanho conflitos e movimentos no mundo. Então, quando um filme se propõe a encarar de frente a crise de refugiados, sem perfume, sem frase de efeito e sem tentar “embelezar” a dor, ele já me ganha no ponto de partida.

O Caso dos Estrangeiros - Foto: Paris Filmes | Divulgação
O Caso dos Estrangeiros – Foto: Paris Filmes | Divulgação

E o filme faz algo que, pra mim, é um choque necessário: ele abre com uma referência literária que escancara o óbvio que a gente insiste em esquecer, essas discussões sobre “estrangeiros”, medo e perseguição não começaram agora. O próprio título do projeto, lá fora, se conecta a um discurso sobre refugiados atribuído a Sir Thomas More dentro de uma peça associada a Shakespeare, escrita séculos atrás.

A estrutura é um dos maiores acertos. O Caso dos Estrangeiros é contado em cinco partes, cada uma acompanhando um personagem e isso dá ao filme um ritmo que, mesmo pesado, não fica arrastado.

Na base, a trama acompanha Amira Homsi (Yasmine Al Massri), uma médica que precisa fugir de Aleppo com a filha após uma tragédia. A decisão coloca tudo em movimento e cruza a trajetória dela com outros quatro desconhecidos até desembocar numa mesma noite no Mediterrâneo, quando sobreviver vira um cálculo brutal.

E aqui o filme acerta no que mais me pegou: ele mostra gente tomando decisões ruins, decisões desesperadas, decisões moralmente cinzentas, mas sempre com a lógica do “o que dá pra fazer agora para não morrer?”.

O Caso dos Estrangeiros - Foto: Paris Filmes | Divulgação
O Caso dos Estrangeiros – Foto: Paris Filmes | Divulgação

O roteiro não trata os personagens como “bons” e “maus” prontos. Ele coloca cada um diante do limite e deixa a gente encarar o desconforto de compreender o que parece incompreensível.

O soldado Mustafa (Yahya Mahayni), por exemplo, é o tipo de personagem que fica na cabeça. Ele carrega a crise de consciência na cara, no corpo, nos silêncios e vira um retrato do quanto a guerra destrói até quando você ainda está vivo.

E o filme expande o olhar: tem o atravessador tentando garantir futuro para o filho, tem o poeta buscando segurança para a família, tem o capitão da guarda costeira dividido entre protocolo e humanidade. A sinopse oficial, inclusive, já resume esse recorte de “dever vs compaixão” como um dos eixos.

O filme é atual justamente porque ele não se limita ao “campo de batalha”. Ele mostra o pós, o caminho, o julgamento social.

Tem uma cena que, pra mim, resume o tamanho do abismo: quando surge a conversa “simples”, quase casual que transforma refugiado em ameaça (“eles podem se tornar violentos”), como se a vida do outro fosse um risco estatístico. É ali que dá o estalo de que a guerra continua fora da guerra.

E tem outro detalhe que é cruel na simplicidade: dois membros da guarda costeira conversando, um falando dos resgates, outro falando das mortes e a sensação de que, em algum momento, parar de contar vira mecanismo de sobrevivência emocional.

O Caso dos Estrangeiros - Foto: Paris Filmes | Divulgação
O Caso dos Estrangeiros – Foto: Paris Filmes | Divulgação

O Caso dos Estrangeiros também sabe usar imagem como comentário. Há escolhas que não precisam virar discurso: um enquadramento, um símbolo, um prédio, uma bandeira e você entende o que está sendo dito sobre o mundo que decide quem merece compaixão e quem merece fronteira.

E pra mim existe uma cena especialmente poderosa (e muito simbólica) na passagem pelos EUA: quando a narrativa mostra médicos que não conseguem “fechar” um diagnóstico… e a mulher da limpeza que o sistema enxerga como ninguém resolve o que faltava. A virada não é sobre “ser melhor que alguém”. É sobre ser apagada. É sobre você ter sido uma baita profissional em zona de guerra e, num novo país, ser reduzida a uma função invisível. Esse momento grita uma frase que o filme todo martela sem precisar narrar: olhe para essas pessoas como pessoas, antes de olhar de onde elas vieram.

O filme se ancora em histórias inspiradas na crise humanitária da Síria e isso ganha outra dimensão quando você coloca os números na mesa. Segundo dados do ACNUR/UNHCR, ao fim de 2024 havia 6,1 milhões de refugiados e solicitantes de asilo sírios e 7,4 milhões de deslocados internos (IDPs) um total que passa de 13 milhões de pessoas forçadas a sair de casa.

Ou seja: a sensação de “isso é realidade, não ficção” não é exagero. É contexto.

O longa teve estreia mundial na Berlinale 2024 (Berlinale Special), o que ajuda a entender por que ele chega ao circuito já com atenção internacional.
No Brasil, O Caso dos Estrangeiros (título original I Was a Stranger) estreou nos cinemas hoje, em 26/02/2026, com distribuição da Paris Filmes.

Veredito

O Caso dos Estrangeiros é um filme difícil e justamente por isso necessário. Ele não oferece conforto. Ele oferece fricção. E, pra mim, ele acerta quando confia no subentendido: não precisa explicar tudo, não precisa amarrar cada salto de tempo, não precisa repetir cena para “garantir” entendimento. Ele te respeita como espectador, te puxa por perspectivas diferentes e faz o tempo passar rápido mesmo quando o assunto pesa.

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