“Bugonia” é daqueles títulos que já chegam com cara de “isso vai dividir a internet”: uma comédia sombria com tempero de thriller e paranoia, dirigida por Yorgos Lanthimos e protagonizada por Emma Stone e Jesse Plemons. A premissa oficial é simples e bem cruel: dois homens obcecados por teorias conspiratórias sequestram uma CEO, convencidos de que ela é uma alienígena infiltrada prestes a “apagar” o planeta.

Só que, como sempre no Lanthimos, o filme não fica no “plot do sequestro”. Ele usa essa situação absurda como laboratório para uma pergunta que dá calafrio justamente por ser muito atual: o que acontece quando a paranoia vira método e a internet vira religião?
A história gira em torno de Teddy (Jesse Plemons), um sujeito que se sente cercado por sinais de colapso — social, ambiental, mental, moral, tudo junto. Ele encontra uma explicação totalizante (daquelas que resolvem o mundo inteiro numa frase): “a elite corporativa é o inimigo”. E a personificação perfeita dessa “ameaça” é Michelle (Emma Stone), uma CEO tão controlada e blindada que, na cabeça dele, só pode ser “não humana”.
O sequestro, que começa como um “ato de revelação” (na lógica torta dos conspiradores), vira um duelo psicológico. De um lado, Teddy tentando arrancar prova/confissão; do outro, Michelle usando linguagem, frieza e poder como armas — às vezes negociando, às vezes manipulando, às vezes entrando no delírio para tentar sobreviver. E aí o filme vai colocando camadas: trauma, violência, classe, trabalho, culpa, controle, e aquela sensação de que a realidade virou um feed infinito.
A origem: de cult sul-coreano a sátira ocidental recalibrada
“Bugonia” é uma adaptação/releitura de “Save the Green Planet!” (2003) — um cult sul-coreano famoso justamente por misturar gêneros e por ter um humor desconfortável, quase febril. A versão do Lanthimos pega esse motor e ajusta o foco para uma sátira de classe, poder corporativo e paranoia contemporânea (com estética de “pesadelo social”)
E sim: Bugonia aparece entre os destaques da temporada do Oscar 2026 (98ª cerimônia) em listas consolidadas por veículos e cobertura internacional, com o filme citado dentro do bloco de indicados e apostas da edição.
O que ajuda muito na “cara de Oscar” aqui é que o filme não é só “esquisito”: ele é esquisito com assunto. E, quando a conversa do ano é desinformação, paranoia, radicalização, culto ao poder e colapso de empatia… fica fácil entender por que um título desses entra no radar.

Leituras e “teorias”
Aqui é onde o filme costuma render discussão boa porque “alienígena” vira metáfora móvel:
- Conspiração como anestesia emocional
Quando tudo parece sem controle, uma narrativa totalizante (por mais delirante que seja) dá alívio: ela organiza o caos. - O corporativismo como desumanização treinada
A CEO não precisa ser ET pra parecer “não humana”: o filme brinca com a ideia de que poder, performance e linguagem corporativa criam uma máscara que afasta qualquer empatia. - Abelhas / colapso / comunidade
O símbolo das abelhas vira contraste: coletividade e vida real versus paranoia individualista. (E a tensão ambiental entra como pano de fundo de ansiedade.)
Essas três camadas se batem o tempo inteiro e o gosto do filme é justamente esse: fazer você rir e, na sequência, perceber que riu de algo bem doente.
Eu geralmente não gosto de assistir trailer nem ficar lendo muito sobre o filme, porque tem produtora que entrega demais ou cria uma expectativa que não bate com o que vem depois. Eu prefiro entrar no cinema meio “no escuro” e ser surpreendido. E, conhecendo o diretor de Bugonia, dava pra imaginar que não seria nada “dentro da caixa”.
A gente viu em pré-estreia, então estava tudo bem “off”, sem aquele barulho de internet mastigando o filme antes. O começo traz uma premissa muito boa: dois primos (meio perdidos, meio ignorantes, presos em teoria da conspiração) versus o mundo do corporativismo e o filme brinca com coisas bem reais (carga horária, home office, hora de ir embora, esse papo todo). Ele também vai colocando abelhas, vai puxando transtornos, traumas, introduz um policial e um passado pesado ali que parece atravessar os personagens. E você vai sendo carregado por isso, porque é uma narrativa bem filmada, bem conduzida, bem “segura” dentro da própria esquisitice.
Só que aí… quando o filme vira, a reação unânime na sala foi: “é que po*** é essa?” Tudo indicava que seria um “filme normal do diretor” (no sentido de estranho, mas com trilho). De repente ele muda, e você fica impactado, tentando entender o que está assistindo. Chega no final e você sai com aquela sensação: “tá, mas por que só os humanos? o que aconteceu aqui? qual é a mensagem?”. É um filme que ganha justamente nessa barbaridade, nessa coragem de ser torto e eu tenho certeza que, na primeira oportunidade, eu vou assistir de novo pra ver o que eu pesquei e o que passou batido.
Onde assistir Bugonia no Brasil (status em 10/02/2026)
Segundo o JustWatch Brasil, checado em 10 de fevereiro de 2026 (20:39:25), Bugonia está assim:
- Streaming (assinatura): Claro tv+
- Aluguel: Apple TV Store e Amazon Video
- Compra (download): Apple TV Store e Amazon Video
- Cinema: o JustWatch também indica sessões no Brasil com venda via Cinesystem Cinemas (isso muda por cidade e semana).
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