Um encontro improvável, duas visões de mundo em colisão e uma pergunta que atravessa religião, política e convivência: dá para discordar sem desumanizar o outro? É nesse terreno, tenso e atual que caminha “Dois Papas”, peça de Anthony McCarten que ganha montagem brasileira e já tem presença confirmada nos palcos do Festival de Curitiba em 2026.

Na encenação dirigida por Munir Kanaan, o texto imagina uma conversa íntima entre dois líderes da Igreja Católica com leituras opostas do mundo: o Papa Bento XVI, interpretado por Zécarlos Machado, e o cardeal argentino Jorge Bergoglio (futuro Papa Francisco), vivido por Celso Frateschi. A peça propõe menos “tese” e mais fricção humana com embate, ironia, silêncio e momentos em que a palavra pesa como se fosse decisão de vida.
A trama parte do instante em que Bergoglio viaja a Roma decidido a pedir aposentadoria. Só que, em vez do desfecho burocrático, ele é convocado para uma conversa pessoal com Bento XVI que considera renunciar ao cargo, cercado por pressões que atingem a Igreja de diferentes lados. O que vem depois é um duelo sem golpes fáceis: tensão, respeito e humor se alternam enquanto as convicções dos dois são testadas.
Munir Kanaan destaca justamente esse jogo de complexidades como motor da história. “O que move essa história é justamente a possibilidade de escuta mútua diante das diferenças”, observa o diretor. Em cena, isso vira dinâmica: nem sempre o “progressista” é o mais seguro, nem sempre o “conservador” é o mais fechado. E é nessa inversão de expectativa que o texto encontra potência.
Além dos protagonistas, o elenco conta com Carol Godoy e Eliana Guttman, que interpretam personagens femininas próximas aos dois líderes: Irmã Sofia, jovem freira argentina transformada pelos ensinamentos de Bergoglio, e Irmã Brigitta, editora de livros religiosos e confidente de Bento XVI. A presença delas ajuda a oxigenar o embate central e ampliar o olhar para o que se passa fora do “duelo” direto.
Visualmente, a montagem aposta num cenário branco com lógica de instalação cênica, que se transforma com figurinos, objetos e projeções. O videomapping entra como ferramenta narrativa e estética, trazendo conteúdos documentais e ampliando o alcance simbólico da encenação sem engessar a peça num formato explicativo demais. A trilha sonora acompanha as transições com sutileza, guiando o espectador entre o ambiente sacro e os momentos em que os personagens ficam perigosamente próximos do que são fora das vestes papais.
McCarten é o autor do livro homônimo e do roteiro do filme popularizado mundialmente, e seu texto tem essa característica de “puxar” figuras históricas para um lugar de contradição: líderes que carregam dúvidas, falhas, vaidades e tentativas reais de acerto. No teatro, isso costuma bater mais forte porque não existe corte existe presença. O diálogo acontece no tempo do desconforto.
Zécarlos Machado observa que a peça toca um nervo contemporâneo: “Vivemos um tempo em que cada um tem sua própria verdade… A peça propõe um caminho de reconciliação pela escuta”. Celso Frateschi reforça que a dramaturgia ultrapassa o universo religioso: a história funciona como espelho para a nossa época, em que discordar virou quase sinônimo de romper.
Direção: Munir Kanaan
De onde? São Paulo – PR
Quando? 06 e 07 de abril às 20h30
Onde? Guairão
Quanto? 85 (inteira) e 42,50 (meia) + taxas
Classificação Indicativa? 14 anos
Gênero: Drama
Duração: 135 minutos com 15 minutos de intervalo
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