O Festival de Curitiba divulgou a programação oficial de sua 34ª edição e, no meio de tantos anúncios que fazem a gente querer marcar tudo na agenda, tem um daqueles nomes que chegam com peso de acontecimento: o Grupo Corpo vem aí com “Piracema”, novo espetáculo que celebra os 50 anos da companhia mineira e, ao mesmo tempo, aponta pra frente.

“Piracema” carrega uma imagem forte já no título e não é metáfora fácil. No Tupi, “pira” é peixe e “cema” é subir. Piracema é o movimento dos cardumes que enfrentam a correnteza rio acima para chegar ao local da desova. É esforço, instinto, repetição e recomeço. E faz todo sentido que o Grupo Corpo tenha escolhido essa ideia como símbolo de uma trajetória que, há cinco décadas, insiste em criar, recriar e resistir com uma brasilidade muito própria, daquelas que conversam com o mundo sem perder a origem.
A coreografia marca um encontro importante: Rodrigo Pederneiras (nome central na linguagem do Corpo) divide a criação com Cassi Abranches, que passa a ser também coreógrafa residente. E o processo de construção foi tudo, menos convencional: a companhia foi dividida em dois grupos de 11 bailarinos e cada coreógrafo criou e ensaiou “seu” balé de forma independente, com regras rígidas, sem circular pela área do outro grupo. Só depois as versões se encontraram. O resultado, segundo a própria equipe, virou uma obra “inteira”, quase como se dessa junção nascesse uma terceira via.
Na trilha, outra estreia que pesa: Clarice Assad assina a música inédita e faz um arco sonoro que vai do tribal e do natural “intocado” até o eletrônico urbano, passando por um momento mais sinfônico como se o balé atravessasse, em som, esse conflito (e essa convivência) entre natureza e tecnologia. Tem ainda um detalhe curioso e bem do nosso tempo: a compositora conta que, na terceira parte, incluiu ruídos e sons criados por inteligência artificial, compondo esse “quebra-cabeças” ao lado da companhia.

Visualmente, “Piracema” também brinca com a ideia de cardume. A cenografia de Paulo Pederneiras usa um material inusitado pra construir uma imagem de “escamas”: são 82 mil tampas de latas de sardinha aplicadas em rede, criando reflexos e textura no fundo do palco. A iluminação é assinada por ele em parceria com Gabriel Pederneiras. Nos figurinos, a criação é de Susana Bastos e Marcelo Alvarenga (Alva), e a proposta mistura conceitos de natureza e tecnologia com uma cartela que parte de tons terrosos e vai abrindo espaço para pratas, cores fortes e tecidos mais leves, conforme a atmosfera do balé se transforma.
No fim, a presença de “Piracema” na programação do Festival de Curitiba funciona quase como um recado: o Corpo chega aos 50 não pra “olhar pra trás com saudade”, mas pra subir a correnteza de novo com ousadia, renovação e uma teimosia bonita de continuar inventando.
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