Entre os longas da Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema 2026, um dos títulos que mais chama atenção pelo recorte social e territorial é “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, novo documentário de João Dumans. O filme integra a seleção oficial do festival em Curitiba, que acontece de 4 a 13 de junho, e aparece na mostra com uma sinopse que já diz muito sobre o seu tom: um grupo de amigos tenta seguir em frente em um pequeno distrito minerário, convivendo com tédio, falta de oportunidades e o álcool como companhia constante.

Em vez de apostar em um grande evento ou em uma tragédia isolada, o filme acompanha a erosão diária de uma comunidade atravessada por desemprego, isolamento e esvaziamento social.
Do que trata o filme
A base da narrativa é simples e forte: acompanhar quem ficou. “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” observa moradores que seguem tentando viver depois que a lógica econômica da mineração remodelou o território. Em uma das descrições públicas do filme, o conflito é resumido assim: desde 2005, os poucos habitantes restantes tentam sobreviver após a compra de suas terras por um gigante do setor minerário. Entre alcoolismo, desemprego e isolamento, eles buscam manter a comunidade de pé e devolver algum sopro de vida ao vilarejo.
Antes de desembarcar em Curitiba, o longa também apareceu no circuito internacional: “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” teve estreia mundial no Visions du Réel, na Suíça, dentro da Competição Internacional de Longas. Na página do festival, o filme aparece com 82 minutos e um texto que destaca o abandono do distrito, a compra de quase todas as terras da vila, a saída de quase 90% dos habitantes e o fechamento simbólico de um mundo que já foi motivo de orgulho para aquela comunidade.
João Dumans e o cinema mineiro contemporâneo
Outro ponto que torna o filme ainda mais interessante é o nome por trás da direção. João Dumans já vinha sendo acompanhado de perto por quem observa o cinema mineiro contemporâneo, e “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” reforça esse interesse.
Dentro da Competitiva Brasileira, “A Noite e os Dias de Miguel Burnier” tem um apelo que vai além da sinopse socialmente forte. Ele parece concentrar uma combinação que costuma render conversa em festival: recorte territorial muito marcado, personagens reais, observação do cotidiano e um tema brasileiro que atravessa economia, política e pertencimento.
É também um filme que pode mexer com públicos diferentes ao mesmo tempo: quem se interessa por documentário político, quem acompanha a produção mineira contemporânea e quem busca no Olhar de Cinema obras que falem do Brasil sem filtro turístico ou explicação excessiva.






