Assalto à Brasileira mistura humor e uma crítica social que incomoda

Assalto à Brasileira me conquistou mesmo em uma sessão que começou de um jeito frustrante para mim: por causa do trânsito, perdi aproximadamente 30 minutos do início. Faço essa ressalva porque esta crítica parte do que consegui acompanhar. Ainda assim, consegui entrar na história, me envolver com os personagens e sair com a sensação de ter assistido a um ótimo filme nacional.

Foto divulgação
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Gostei muito da combinação entre humor, atuações e uma crítica social que atravessa aquela situação aparentemente absurda. Saber que existe um acontecimento real por trás da narrativa torna tudo ainda mais interessante.

A história real por trás de Assalto à Brasileira

Dirigido por José Eduardo Belmonte, o filme revisita o assalto ao Banestado ocorrido em Londrina, no Paraná, em 10 de dezembro de 1987. Na ocasião, sete homens invadiram a agência, fizeram cerca de 300 reféns e exigiram 30 milhões de cruzados, a moeda da época. O episódio aconteceu em um contexto de forte insatisfação com as instituições e chegou a despertar apoio popular aos assaltantes.

Na adaptação, Murilo Benício interpreta Paulo, um jornalista que se vê envolvido no assalto e encontra naquela situação uma oportunidade profissional. A produção da Santa Rita Filmes é inspirada no livro de Domingos Pellegrini, com roteiro de L.G. Bayão.

É uma história que oferece muito espaço para observar as contradições brasileiras. E foi justamente essa dimensão que mais me chamou a atenção.

Murilo Benício e uma caracterização impressionante

Gostei muito da atuação de Murilo Benício. Ele foi um dos grandes destaques da minha experiência, dentro de um elenco que ajuda a sustentar essa mistura de tensão, humor e situações que parecem improváveis demais para terem alguma ligação com a realidade.

Christian Malheiros, que interpreta Moreno, também merece destaque. Um dos momentos que mais ficaram comigo foi seu discurso sobre a desigualdade e o enriquecimento dos bancos enquanto a população enfrenta cada vez mais dificuldades.

Também adorei a comparação apresentada ao final entre os personagens e as pessoas reais. Especialmente ao ver Christian Malheiros e, depois, a figura que ele representa, a semelhança impressiona. A caracterização aproxima a ficção daquele acontecimento e reforça o cuidado da produção.

O trabalho de caracterização e maquiagem é assinado por Bob Paulino e merece esse reconhecimento.

O humor de Assalto à Brasileira carrega uma crítica social

O filme tem comédia, mas a indignação que atravessa a história foi o que mais me pegou.

No monólogo de Moreno, a riqueza dos bancos é colocada diante do empobrecimento da população. A fala concentra aquela sensação conhecida: o rico fica cada vez mais rico, enquanto o pobre precisa fazer um esforço cada vez maior para conseguir viver.

Para mim, esse discurso toca na frustração de quem trabalha, cumpre suas obrigações e continua sentindo que está sempre ficando para trás. Quando as instituições passam a representar cobrança, distância e falta de perspectiva, a revolta encontra um alvo.

É por isso que a ideia de agir em nome do povo ganha tanta força dentro da narrativa. Moreno tenta transformar o assalto em uma reação coletiva, dando ao que faz um sentido de enfrentamento ao sistema.

Foi essa tentativa de revolta que enxerguei no filme. A indignação daqueles personagens se aproxima de um sentimento que muita gente reconhece, mesmo vivendo circunstâncias completamente diferentes.

O humor ajuda essa discussão a chegar ao público. A gente ri das situações, acompanha os personagens e, no meio disso, percebe o tamanho da insatisfação que sustenta aquela história.

A distribuição do dinheiro dá força ao discurso

A sequência em que parte do dinheiro é entregue aos reféns torna essa ideia especialmente marcante. Dentro do filme, o gesto dá uma forma concreta ao discurso de que aquele dinheiro também deveria chegar às pessoas comuns.

E existe registro desse aspecto no caso real. Uma reportagem da Folha de Londrina, com relatos de pessoas ligadas à cobertura do episódio, informa que os assaltantes distribuíram dinheiro entre os reféns durante a fuga.

Na parte a que assisti, chamou minha atenção a maneira como o filme constrói a relação dos assaltantes com aquelas pessoas. O diálogo e a proximidade dão espaço para enxergá-los como indivíduos indignados, tentando justificar suas escolhas e conquistar apoio.

A leitura que ficou comigo foi a de uma revolta que encontra, naquele assalto, uma maneira de se apresentar ao mundo. Essa aproximação entre insatisfação popular, discurso político e espetáculo torna a história muito interessante.

Vale a pena assistir a Assalto à Brasileira?

Eu gostei muito. Assalto à Brasileira reúne boas atuações, humor e uma discussão social que me envolveu. José Eduardo Belmonte entrega mais um trabalho que gostei de acompanhar, especialmente pela maneira como conduz essa combinação.

Minha nota é 4 de 5, considerando a experiência que tive e a ressalva de não ter acompanhado os primeiros 30 minutos.

O atraso não impediu que eu reconhecesse a qualidade do filme. Saí da sessão pensando na história, nos personagens e na riqueza do nosso cinema nacional, que tem tanta coisa para contar e tantas maneiras de olhar para o próprio país.

Nota: 4/5.

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