No primeiro dia de exibições do Olhar de Cinema, tive a oportunidade de assistir à primeira sessão da mostra Olhares Clássicos, no Cine Passeio. E, logo de cara, já era uma exibição que carregava peso: a primeira restauração exibida dentro da mostra e também a primeira vez que vi Beirute Fantasma, longa de estreia de Ghassan Salhab, em uma versão restaurada acompanhada de perto pelo próprio diretor.

Em seu primeiro longa, cuja produção levou quatro anos, Salhab mergulha na melancolia vaga do fim dos anos 1980 e começo dos 1990, acompanhando um Líbano marcado pelo “fim” da guerra civil, embora tudo ali indique que certos conflitos nunca acabam de verdade. Eles apenas mudam de forma, de linguagem e de presença. O filme parte desse território instável, tanto político quanto emocional, para construir uma narrativa cheia de ausências, fantasmas e identidades suspensas.
E talvez seja justamente por isso que Beirute Fantasma continue tão atual.
Uma cidade que também é fantasma
A sinopse já entrega o coração da história: Khalil retorna a Beirute com uma nova identidade, anos depois de ter forjado a própria morte. Seus antigos amigos e companheiros de guerra acreditavam que ele havia morrido, a ponto de realizarem um velório e transformarem sua imagem em símbolo heroico, estampado em cartazes. Só que esse retorno não funciona apenas como reviravolta narrativa. Ele opera como metáfora.
O fantasma aqui não é só Khalil.
O fantasma é a própria cidade.
Uma cidade que foi devastada, reinventada, esquecida, disputada, mas que continua ali, de alguma forma, existindo entre ruínas, memórias e silêncios. Beirute aparece como esse corpo suspenso, preso entre o que viveu e o que ainda não conseguiu superar.
Uma das coisas mais interessantes no filme é a forma como ele flerta com o documental. Ao mesmo tempo em que existe uma construção ficcional muito clara, o longa também abre espaço para relatos, memórias e falas que parecem atravessar os personagens e tocar experiências mais concretas da guerra.
Em vários momentos, somos apresentados a pessoas que tiveram suas vidas completamente alteradas pelos conflitos. Gente que segue viva, mas marcada. Gente que parece esquecida, mas que continua carregando no corpo e na fala os efeitos de duas décadas de violência. Há cenas em que os personagens relatam como a guerra mudou suas trajetórias, sua percepção de mundo e a forma como continuam vivendo depois de tudo.
Isso dá ao filme uma força muito particular.
Ele não trata a guerra como pano de fundo.
Ele trata a guerra como presença.
As atuações, em alguns momentos, têm uma marca mais evidente, quase teatral. Não são interpretações naturalistas no sentido mais convencional, e isso pode causar certo estranhamento para quem espera um registro mais “limpo” ou direto. Mas, no caso de Beirute Fantasma, esse traço não enfraquece o filme. Pelo contrário: combina com essa atmosfera de suspensão, de irrealidade e de luto inacabado que atravessa toda a narrativa.
No final, Khalil é sequestrado por engano. O ato em si não é mostrado diretamente, mas a forma como essa informação chega é uma das chaves mais fortes do filme. A frase final funciona como síntese perfeita de tudo que o longa construiu até ali:
A frase era algo como: “Eu sei quem sequestrou ele, mas não sei onde.
A questão é que vão soltá-lo, só não sei aonde e quando.”
É uma fala que vale por uma vida inteira de incerteza. E, mais uma vez, não parece falar apenas de um homem. Fala de um país, de uma cidade, de uma geração inteira jogada num estado de suspensão permanente. Como se ninguém soubesse exatamente onde termina a guerra, onde recomeça a vida e quando, ou se, alguma libertação de fato acontece.
Veredito
Beirute Fantasma é um filme profundamente marcado por seu tempo, mas que continua reverberando no presente com força impressionante. Ao falar de guerra, memória, desaparecimento e identidade, Ghassan Salhab constrói uma obra que se move entre o íntimo e o político sem precisar gritar.
É um longa melancólico, por vezes duro, mas também muito rico na forma como transforma uma cidade ferida em linguagem cinematográfica. E vê-lo restaurado, dentro de uma mostra como Olhares Clássicos, amplia ainda mais a potência de um filme que permanece vivo justamente porque nunca deixa suas cicatrizes virarem passado.
Trailer oficial:
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