Chorão: Só os Loucos Sabem emociona ao revelar o homem por trás do ídolo

Era impossível ficar em silêncio.

Quando as músicas começaram a tocar em Chorão: Só os Loucos Sabem, aconteceu algo dentro do Palácio dos Festivais que talvez explique melhor esse filme do que qualquer análise técnica: as pessoas cantaram.

foto divulgação
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E cinema também proporciona isso. Sentimentos e experiências que a gente nem imaginava viver.

Assistir à história de Chorão dentro do Festival de Cinema de Gramado foi uma dessas experiências.

Exibido na Mostra Competitiva de Longas-Metragens Brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, Chorão: Só os Loucos Sabem é dirigido por Hugo Prata e Felipe Novaes e mergulha na trajetória de Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr.

José Loreto assume a responsabilidade de interpretar Chorão, enquanto Nanda Marques vive Graziela Gonçalves, sua companheira por muitos anos.

O roteiro de Duda de Almeida é inspirado justamente no livro escrito por Graziela, Se Não Eu, Quem Vai Fazer Você Feliz? – Minha História de Amor com Chorão. E isso ajuda a entender por que o filme não está interessado apenas no artista que subia ao palco.

Existe o Chorão do Charlie Brown Jr, mas existe principalmente Alexandre.

Por trás de Chorão existia um vazio

O filme passa por Santos, pelo skate, pelo surgimento da banda, pelo relacionamento com Graziela e pela ascensão de um dos maiores nomes do rock nacional.

Só que existe uma coisa acompanhando praticamente toda essa trajetória: a intensidade.

Chorão era intenso.

Na música, no amor, na raiva, nas amizades e também nas próprias dores.

E o filme vai mostrando aos poucos um homem que, mesmo cercado de pessoas, parecia carregar um vazio enorme dentro dele.

Porque existe uma diferença muito grande entre estar sozinho e sentir-se sozinho.

Em momentos do filme, José Loreto consegue transmitir exatamente essa sensação. Quando o longa desacelera e permite que o personagem simplesmente exista em cena, a gente consegue perceber a dor.

E são justamente esses momentos que me fizeram desejar que o filme respirasse um pouco mais.

A história é grande demais.

São relacionamentos, música, fama, conflitos, perdas, drogas, depressão, a formação do Charlie Brown Jr. e uma quantidade enorme de acontecimentos para colocar dentro de um único longa.

Por isso, em alguns momentos, senti tudo um pouco corrido.

Algumas situações começam e terminam muito rapidamente. Uma cena acontece, logo estamos em outra fase da vida e depois outra coisa importante já está acontecendo.

Entendo completamente a dificuldade.

A vida de Chorão daria facilmente muito mais do que um filme.

Mas senti falta de algumas pausas. Principalmente porque, quando elas existem, José Loreto mostra que consegue segurar muito bem o personagem.

José Loreto realmente se transforma em Chorão

Visualmente, a semelhança impressiona.

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Tem momentos em que você olha para José Loreto e realmente enxerga Chorão.

O jeito de falar, o corpo, as roupas, a energia e toda aquela estética ligada ao skate e ao rock dos anos 90 ajudam demais na imersão.

E aqui também entrou uma identificação completamente pessoal.

Eu andei de skate.

Charlie Brown Jr. fez parte da minha fase skatista.

Então é impossível separar totalmente a pessoa que está escrevendo hoje daquela menina que viveu parte dessa cultura e escutou aquelas músicas.

Filme também é identificação.

É por isso que acredito que esse seja um filme com um potencial popular enorme.

Charlie Brown Jr. atravessou gerações.

E quando aquelas músicas começam, existe uma conexão imediata.

Nos números musicais, Loreto funciona muito bem e a caracterização impressiona, embora eu tenha sentido que algumas performances poderiam explorar um pouco mais fisicamente a presença de palco de Chorão. Em determinados momentos, ele permanece muito concentrado em uma mesma posição, enquanto a memória que tenho de Chorão é justamente de uma energia muito grande no palco.

É um detalhe.

Porque, no conjunto, a transformação realmente funciona.

E existe outro elemento que ajuda demais nisso: a banda.

Pedro Tirolli interpreta Champignon, Gustavo Cintra vive Marcão Britto, Rony Frauches interpreta Thiago Castanho e Gabriel Ferrara assume Renato Pelado.

Tive a oportunidade de conhecer os meninos durante o Festival de Cinema de Gramado e achei muito legal poder conversar com eles depois de já ter assistido ao filme. Porque uma coisa que me chamou atenção na tela foi justamente a sintonia entre eles. Não parece simplesmente que colocaram alguns atores atrás de instrumentos para formar o Charlie Brown Jr.

As filmagens foram encerradas durante um show do DZ6, cover oficial do Charlie Brown Jr., em São Paulo, onde parte das cenas da banda foi rodada diante de um público real.

E depois de conhecê-los pessoalmente em Gramado, achei ainda mais bacana poder olhar para o trabalho de cada um e reconhecer o quanto eles contribuíram para essa imersão. Porque Chorão era gigante, mas aquela história também foi construída ao lado de uma banda que marcou uma geração.

Um filme feito para quem viveu Charlie Brown Jr.

Chorão: Só os Loucos Sabem é uma cinebiografia bastante popular e comercial.

E não digo isso como algo negativo.

É um filme que sabe que existe uma legião de pessoas esperando para ouvir aquelas músicas dentro de uma sala de cinema. Sabe que existe memória afetiva. Sabe que muita gente cresceu ouvindo Chorão cantar sobre amor, amizade, revolta, liberdade, dias difíceis e a sensação de tentar encontrar algum lugar no mundo.

Mas existe uma ironia dolorosa quando conhecemos um pouco mais o homem por trás dessas músicas.

Um artista capaz de escrever versos que ajudaram tanta gente parecia ter uma dificuldade enorme de lidar com as próprias dores.

O filme entra nesse lugar.

Fala sobre fama, amor, dependência química, depressão e principalmente sobre essa sensação de vazio que acompanhava Chorão.

Eu cantei. Eu lembrei. Eu me identifiquei. E em determinados momentos eu senti a dor daquele personagem.

Depois de três filmes da Mostra Competitiva, continuo sentindo que o Festival de Cinema de Gramado começou muito bem.

Minha nota: 3,5 de 5 estrelas.

Chorão: Só os Loucos Sabem estreia nos cinemas brasileiros em 4 de março de 2027, com distribuição da Downtown Filmes.

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