Pele de Rinoceronte é aplaudido em Gramado ao revisitar um crime que o Brasil ainda não superou

Foram três Festivais de Gramado, e nos anos anteriores eu não presencie aplausos no meio da sessão.O filme ainda não tinha terminado. Não eram os créditos. Não era a equipe entrando no palco. Era uma cena.

foto divulgação
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Maria Thereza, personagem de Naruna Costa, ensaiava a acusação que faria no tribunal e, conforme aquele discurso foi crescendo, alguma coisa aconteceu dentro da sala. Quando ela terminou, vieram os aplausos.

Pele de Rinoceronte, dirigido por Marcello Ludwig Maia e com roteiro de Josefina Trotta, volta à década de 1970 para falar de uma violência que, infelizmente, não ficou nos anos 70.

O longa é livremente inspirado no assassinato de Ângela Diniz, ocorrido em 1976, e acompanha a história principalmente através de duas mulheres. Helena, interpretada por Débora Falabella, é uma repórter de um jornal popular que acompanha o caso de perto, enquanto Maria Thereza, vivida por Naruna Costa, é uma advogada criminalista envolvida na acusação.

Um crime dos anos 70 que continua falando sobre o presente

Helena escreve sobre crimes, assassinatos e violência contra mulheres. É uma jornalista que entra naquele universo para investigar, conversar com pessoas, entender o que aconteceu e transformar tudo aquilo em matéria.

Só que, enquanto escreve sobre violência contra mulheres, ela também começa a perceber essa violência atravessando sua própria vida.

E foi aí que Pele de Rinoceronte começou a mexer muito comigo.

Estamos falando de uma época em que matar uma mulher e alegar a chamada “legítima defesa da honra” chegou a ser utilizado como estratégia para tentar justificar um crime. É absurdo escrever isso. Mais absurdo ainda é pensar que essa discussão não está tão distante de nós quanto gostaríamos.

Porque as leis mudaram. A sociedade mudou em muitos aspectos. Mas o machismo continua existindo.

A violência psicológica continua existindo.

O feminicídio continua existindo.

E mulheres continuam tendo seus comportamentos, roupas, relacionamentos e escolhas analisados quando são vítimas de violência.

É por isso que eu sempre falo: filme nunca é apenas filme.

Talvez Pele de Rinoceronte tenha me atingido ainda mais porque assisti Débora Falabella no teatro em Prima Facie, durante o Festival de Curitiba. São obras diferentes, mas existe um ponto de encontro muito forte na discussão sobre violência contra a mulher e sobre estruturas construídas durante décadas por homens e para homens.

O machismo nem sempre aparece gritando

Uma das coisas mais interessantes do filme, para mim, está justamente nos homens que aparentemente não são os grandes vilões.

Existe o homem obviamente violento. Existe aquele que acredita ter algum direito sobre uma mulher. Mas existe também um machismo muito mais silencioso.

E esse talvez seja um dos que mais me incomodam.

O marido de Maria Thereza é um exemplo disso.

Ele não precisa aparecer como um homem monstruoso para reproduzir uma estrutura machista. Em determinado momento, quando ela precisa de apoio, existe uma hesitação disfarçada de preocupação.

É aquele argumento que conhecemos muito bem: “eu só quero te proteger”.

Só que uma mulher não precisa que um homem decida por ela aquilo que ela é ou não capaz de enfrentar.

Para mim, existe uma violência muito silenciosa nisso. Porque ele pode genuinamente acreditar que está fazendo o melhor para ela. Pode acreditar que está sendo um bom marido. Só que o machismo é estrutural justamente por isso: muitas vezes ele aparece em comportamentos que foram normalizados durante gerações.

Uma mulher é capaz de decidir o que quer fazer, onde quer estar e quais riscos está disposta a enfrentar.

Ela não precisa de autorização masculina disfarçada de proteção.

Naruna Costa entrega uma das cenas mais fortes do filme

Para mim, um dos grandes momentos de Pele de Rinoceronte está naquele ensaio para o tribunal.

Naruna Costa cresce absurdamente na cena.

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Maria Thereza começa a construir seu argumento e aquilo vai ganhando força até chegar a um ponto em que você não está mais simplesmente assistindo a uma personagem ensaiando uma acusação.

Você está ouvindo uma mulher falar sobre mulheres.

E a sala respondeu e eu chorei.

As pessoas aplaudiram no meio da sessão.

Foi um dos momentos mais fortes que vivi até agora dentro do Festival de Cinema de Gramado e, sem dúvida, uma das melhores cenas do filme.

Porque existe uma pergunta muito incômoda atravessando toda essa história: por que ela morreu?

E quando começamos a retirar todas as justificativas, julgamentos e argumentos construídos ao redor da vítima, sobra uma realidade muito mais simples e brutal.

Uma mulher foi assassinada.

A partir daí, discutir o comportamento dela, os relacionamentos que teve ou a maneira como decidiu viver a própria vida significa deslocar novamente a atenção de quem cometeu o crime para quem sofreu o crime.

E quantas vezes ainda fazemos isso?

É uma pergunta que Pele de Rinoceronte deixa para quem está assistindo.

E isso funciona.

Ao mesmo tempo, nem tudo funcionou para mim.

Existem diálogos muito explicativos que me tiraram um pouco da história. Em alguns momentos, senti personagens apresentando informações de uma maneira que parecia estar ali principalmente para explicar determinado contexto histórico ao público.

É quase aquele diálogo do “você sabia que…?”

Eu entendo a necessidade de contextualizar uma história ambientada há cinco décadas, principalmente para quem não conhece o caso real, mas acho que algumas dessas informações poderiam aparecer de maneira mais orgânica.

Também tive uma dificuldade maior em mergulhar completamente na ambientação dos anos 70.

O figurino está ali. Os elementos da época estão ali. Mas, em determinados momentos, eu sentia atores contemporâneos usando roupas dos anos 70, e não necessariamente personagens vivendo naquela década.

É uma percepção completamente pessoal, claro, mas interferiu um pouco na minha imersão.

E talvez por eu ter criado tantas expectativas, principalmente depois da experiência que tive com Prima Facie, eu tenha esperado que Pele de Rinoceronte me atravessasse ainda mais.

Mas ele me emocionou.

Chorei novamente.

Aliás, estou chorando praticamente todos os dias neste Festival de Cinema de Gramado.

E acho que isso também diz alguma coisa sobre a maneira como minha relação com o cinema mudou ao longo dos últimos anos.

Quanto mais participo de festivais, assisto ao cinema nacional e tenho contato com essas histórias dentro de uma sala de cinema, mais tento me entregar à experiência como espectadora. Não quero simplesmente procurar defeitos ou decidir se determinada escolha técnica está certa ou errada. Quero entender o que aquele filme despertou em mim.

E Pele de Rinoceronte despertou muita coisa.

Principalmente porque sou mulher.

Existem violências que talvez sejam percebidas de maneira diferente quando você já cresceu entendendo que determinados cuidados fazem parte da sua rotina simplesmente por ser mulher. Violência não começa necessariamente com uma agressão física. Existe violência psicológica, controle, silenciamento, medo e uma série de comportamentos que vão interferindo na maneira como uma mulher ocupa o mundo.

Por isso, quando um filme volta aos anos 70 para falar de um assassinato de uma mulher, mas consegue fazer com que eu pense no presente, existe alguma coisa ali que funcionou.

Talvez essa seja uma das maiores qualidades de Pele de Rinoceronte.

Ele olha para o passado, mas não permite que a gente tenha o conforto de pensar que tudo aquilo ficou lá.

Gostei do filme. Gostei bastante.

Tenho minhas questões com alguns diálogos, com parte da ambientação e talvez tenha chegado à sessão esperando demais. Mas existe uma discussão necessária, atuações fortes e pelo menos uma cena que conseguiu fazer uma sala inteira interromper o silêncio e aplaudir.

Isso não acontece todos os dias.

Minha nota: 3,5 de 5 estrelas.

E continuo pensando naquela cena do tribunal.

Talvez porque, quase 50 anos depois do crime que inspira essa história, ainda exista muita coisa que nós, mulheres, precisamos dizer em voz alta.

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