Antes de qualquer coisa, adaptação de livro sempre entra em campo em terreno perigoso. Não só porque existe uma parcela grande do público que já leu a obra original e chega ao cinema com expectativa alta, mas porque traduzir para a tela um material que já nasceu amado quase nunca é simples. E isso vale especialmente para filmes baseados em livros com fandom forte, como os de Colleen Hoover.

Uma Segunda Chance já carrega esse peso antes mesmo de começar. E basta uma olhada rápida na repercussão para perceber que quem já conhecia a história original não recebeu a adaptação exatamente com flores na mão. Só que, mesmo deixando essa comparação um pouco de lado e olhando apenas para o filme, ainda sobra uma sensação de que ele poderia entregar mais do que entrega.
Um drama romântico que vende uma coisa e parece outra
Tem uma questão curiosa logo de cara: o título em inglês parece conversar melhor com a proposta emocional do filme do que o nome em português. Não que “Uma Segunda Chance” seja completamente deslocado do tema, porque o filme fala justamente sobre recomeço, perdão e tentativa de reconstrução. Mas, quando você junta esse título ao cartaz e ao clima da divulgação, a impressão inicial é de que a trama vai por um caminho um pouco diferente do que realmente vai.
E isso pesa porque o longa não demora a mostrar que quer funcionar como um melodrama romântico bem clássico, daqueles que se apoiam em trauma, culpa, luto e reconciliação. O problema é que ele até acerta nesse terreno em alguns momentos, mas nunca parece seguro o bastante para sustentar a intensidade que a própria história exige.

O filme não é ruim, ele só deixa a desejar
Essa é a melhor forma de resumir: Uma Segunda Chance não é um filme ruim. Ele tem elementos que funcionam, consegue envolver em alguns trechos e até tem um tom emocional que pode atingir quem entra na sessão disposto a comprar a proposta. Mas também é um filme que deixa a desejar com frequência, principalmente porque parece sempre muito mais raso do que gostaria de ser.
A trama acompanha Kenna, uma mulher que retorna à cidade natal após sair da prisão, tentando reconstruir a própria vida e, ao mesmo tempo, se aproximar da filha. A partir daí, o longa trabalha luto, ressentimento, culpa e a possibilidade de um novo afeto. Em teoria, é material suficiente para um drama forte. Na prática, o filme acaba caindo num lugar muito mais clichê do que impactante.
E não tem problema ser clichê quando existe emoção verdadeira sustentando a história. O problema é quando o clichê vem acompanhado de uma execução sem força.
O maior tropeço do filme, para mim, está na atuação da protagonista. Maika Monroe até segura o básico da personagem, mas quando a cena exige mais intensidade, mais peso, mais descontrole ou mais vulnerabilidade, a entrega não acompanha.
A comparação que veio na minha cabeça o tempo todo foi a da Bella Swan, de Crepúsculo, personagem vivida por Kristen Stewart: aquela expressão muito travada, muito quadrada, que muda pouco demais mesmo quando a emoção da cena pede outra coisa. E isso prejudica bastante a condução do filme, porque Kenna é uma personagem que precisava carregar o trauma no corpo, no olhar e na explosão.
Tem um momento que resume isso muito bem: quando ela desconta a raiva chutando objetos no chão. Era para ser uma cena de ira transbordando, de frustração saindo do controle. Mas o que passa é quase a energia de uma batidinha de dedo na quina do móvel. Falta peso. Falta verdade. Falta presença.
E isso acontece ao longo do filme inteiro. Seja triste, seduzindo, alegre, culpada ou irritada, a expressão da atriz quase nunca muda o suficiente para dar dimensão real ao que a personagem está vivendo. O resultado é um drama que, em vez de crescer, às vezes escorrega para uma sensação involuntariamente artificial, quase de pastelão em alguns momentos.

O alívio cômico funciona melhor do que o romance
Curiosamente, o filme até encontra algum respiro nas interações mais leves e em certos momentos de alívio cômico. Essas pequenas quebras funcionam bem e ajudam a tirar o peso excessivo do melodrama. Só que esse ganho dura pouco, porque logo o longa volta a depender da química do casal principal e é justamente aí que ele perde força de novo.
Tem outro ponto importante: na primeira vez, o filme passa rápido. Ele tem um fluxo que segura a atenção razoavelmente bem, principalmente porque existe uma curiosidade natural sobre como a história vai resolver o conflito central.
Mas na segunda vez, tudo desacelera muito. E isso denuncia uma perda de ritmo que talvez passe mais despercebida na primeira sessão, mas fica gritante depois.
Talvez a maior frustração venha do fim. O longa passa boa parte do tempo trabalhando dor, ressentimento, culpa e uma raiva guardada por anos e então resolve quase tudo em um intervalo curto demais, como se bastasse uma carta e poucos minutos para reorganizar emocionalmente um estrago construído ao longo de cinco anos.
Não é que o filme precisasse terminar mal ou negar qualquer possibilidade de reconciliação. O problema é que ele acelera demais o desfecho. O que vinha sendo tratado como ferida profunda acaba sendo costurado rápido demais, e isso tira força justamente daquilo que deveria ter mais impacto.
Vale a pena assistir?
Vale, mas com expectativa ajustada.
Uma Segunda Chance é um filme assistível, com alguns momentos tocantes, boas intenções e uma base dramática que poderia render algo mais forte. Só que ele fica preso entre o melodrama eficiente e a execução mediana. Não é desastroso, não é insuportável, não é um filme que “não funciona”, só está longe de ser tudo o que poderia ser.
Veredito
Uma Segunda Chance tem coração, mas falta impacto. Funciona melhor como drama romântico básico do que como grande adaptação emocional. Entre clichês, ritmo irregular e uma protagonista que nunca encontra a intensidade que o papel pedia, o filme acaba ficando no meio do caminho.
Nota: 2,5/5 estrelas
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