Telúrica estreia no Olhar de Cinema 2026

Telúrica chega ao 15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba como um dos oito longas selecionados para a competição brasileira. Dirigido pela realizadora pernambucana Mariana Lacerda, o documentário “Telúrica, a Íntima Utopia” acompanha a Companhia Teatral Ueinzz durante o processo de criação de uma peça sobre a existência na Terra e a extinção das espécies.

Cartaz Telúrica final
Cartaz Telúrica final

Ambientado em São Paulo, em 2024, o filme se aproxima de um grupo formado majoritariamente por atores e atrizes que já atravessaram experiências psíquicas extremas. No entanto, a obra não parte de um olhar distante ou explicativo. Pelo contrário, ela constrói uma experiência de convivência, escuta e criação coletiva.

Além disso, o longa abre a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do festival, com sessão no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba.

Telúrica acompanha a criação de uma peça sobre a existência na Terra

Em “Telúrica, a Íntima Utopia”, a Cia Ueinzz ensaia uma peça sobre a vida no planeta, a extinção das espécies e a vontade de permanecer.

Durante o processo criativo, os integrantes inventam seres ancestrais, exploram idiomas estrangeiros, criam coreografias magnéticas e compartilham pensamentos sobre o presente e o futuro.

Com isso, o filme se torna menos uma obra “sobre” o grupo e mais uma experiência construída com o grupo.

Aos poucos, sonhos, memórias, fabulações e formas distintas de existir passam a compor uma espécie de organismo coletivo. Nesse sentido, o documentário transforma o ensaio teatral em um espaço de escuta, pertencimento e preservação da comunidade.

Mariana Lacerda filma com a Cia Ueinzz, não sobre a Cia Ueinzz

Segundo Mariana Lacerda, o desejo de se aproximar da Cia Ueinzz nasceu em 2015, quando ela conheceu Peter Pál Pelbart, um dos integrantes do grupo.

Desde o início, a cineasta afirma que não queria fazer um filme “sobre” eles, mas com eles. Por isso, o processo foi construído com tempo, presença e cuidado.

A partir de 2023, quando a Ueinzz já era grupo residente da Casa do Povo, no Bom Retiro, em São Paulo, Mariana passou a acompanhar os encontros semanais. Primeiro, registrava tudo com uma câmera pequena. Depois, a equipe foi crescendo, conforme a intimidade com o grupo também se fortalecia.

Dessa forma, Telúrica foi surgindo aos poucos, a partir dos encontros, das pausas, dos vínculos e da convivência.

Um filme sobre teatro, tempo e convivência

Para Mariana Lacerda, “Telúrica, a Íntima Utopia” não é uma peça filmada. Também não é apenas um documentário sobre o espetáculo.

Na verdade, o filme se constrói no “entre”: entre cinema e teatro, entre ensaio e vida, entre presença e silêncio.

Esse olhar aparece na maneira como a câmera acompanha os integrantes da companhia. Em vez de explicar demais, o documentário observa gestos, tempos internos, vínculos e pequenas transformações.

Além disso, a obra se interessa por uma ideia de utopia menos grandiosa e mais cotidiana. A utopia, aqui, não aparece como um futuro impossível. Ela surge como prática diária, molecular e íntima.

A Cia Ueinzz e seus 30 anos de atuação

A Companhia Teatral Ueinzz tem cerca de 30 anos de atuação e nasceu no hospital-dia A Casa, em São Paulo. No entanto, depois de alguns anos, o grupo se tornou independente do circuito psiquiátrico.

Segundo o filósofo Peter Pál Pelbart, a companhia passou a atuar com autonomia, fora da lógica institucional.

Com o tempo, alguns integrantes saíram, outros morreram e novos chegaram. Hoje, a composição do grupo é bastante plural, reunindo pessoas com diferentes formas de inserção e desinserção social.

Por isso, a Ueinzz não funciona apenas como uma companhia teatral. Ela também se afirma como uma comunidade, um espaço de criação e um modo coletivo de existir.

O que significa “telúrica”?

Uma das perguntas que atravessa o filme é simples e potente: afinal, o que é telúrica?

No documentário, a filósofa Juliana Fausto é convidada a responder essa questão. Ela explica que o termo se relaciona à Terra, tanto em um sentido geofísico quanto simbólico, poético e espiritual.

Assim, a palavra carrega uma força ligada ao solo, às correntes naturais, aos corpos e à ideia de uma energia vital que atravessa o planeta.

No filme, essa noção se conecta ao trabalho da Cia Ueinzz. Afinal, o grupo cria uma peça sobre a Terra, o Antropoceno, o fim do mundo e a persistência da vida.

Cinema e teatro se encontram em Telúrica

A presença da câmera muda a relação do grupo com a própria cena. Segundo Elisa Band, responsável pela direção cênica e dramaturgia no set, o processo das filmagens colocou “um microscópio no teatro”.

Com isso, nuances, ritmos, vínculos e composições antes invisíveis passaram a aparecer de outra forma.

Ao mesmo tempo, a relação com a câmera também produziu novos modos de presença, escuta e atenção. O cinema observou o teatro de perto. O teatro, por sua vez, também transformou o cinema.

Dessa troca, nasceu uma obra em que as cenas da peça, do filme e da vida acontecem juntas.

Um documentário sobre coletividade e imaginação

Em Telúrica, o coletivo é um elemento central.

O filme não separa Mariana Lacerda, sua equipe e a Cia Ueinzz como blocos distintos. Pelo contrário, tudo parece se fundir em um mesmo organismo criativo.

Nesse sentido, a obra propõe uma experiência de conjunto. O canto, o erro, o silêncio, a dublagem, a fala e a pausa ganham valor como formas legítimas de expressão.

Além disso, o documentário abre espaço para que os integrantes pensem sobre vida, morte, cosmos, tempo e imaginação. A partir daí, o filme deixa surgir uma dimensão poética que não obedece a comandos rígidos.

Mariana Lacerda retorna ao Olhar de Cinema com novo longa

Telúrica é o segundo longa-metragem de Mariana Lacerda.

Antes dele, a realizadora dirigiu “Gyuri”, documentário que investigou a relação entre a fotógrafa Claudia Andujar e o xamã Davi Kopenawa, um dos líderes do povo Yanomami.

Agora, em “Telúrica, a Íntima Utopia”, Mariana volta a trabalhar com a ideia de encontros. No entanto, desta vez, o foco está na convivência com a Cia Ueinzz e na criação de uma obra que atravessa teatro, cinema, saúde mental, ecologia e coletividade.

O filme é uma realização da produtora Bebinho Salgado. Além disso, tem produção associada e distribuição da Descoloniza Filmes, parceira da diretora desde “Gyuri”.

Sinopse de Telúrica, a Íntima Utopia

Em São Paulo, uma trupe teatral formada por atores e atrizes cujas almas sentem o mundo vacilar ensaia uma peça sobre a existência na Terra e a extinção das espécies.

Enquanto criam o espetáculo, os integrantes refletem sobre suas trajetórias, sobre a preservação de sua comunidade e sobre a vontade de perseverar na vida.

Pensamentos, projeções sobre o futuro e o passado, visões e formas de existir aparecem como entidades a serem preservadas.

Ficha técnica de Telúrica, a Íntima Utopia

Título: Telúrica, a Íntima Utopia
Título em inglês: Telluric, the Intimate Utopia
País: Brasil
Ano: 2026
Gênero: Documentário
Duração: 104 minutos
Formato: DCP 2K | 16:9 | Som 5.1
Acessibilidade: Libras, legenda descritiva e audiodescrição

Direção: Mariana Lacerda
Produção: Carol Ferreira
Produtor associado: Ibirá Machado
Roteiro: Mariana Lacerda e Paula Mercedes
Direção de fotografia: Marcelo Lacerda
Montagem: Paula Mercedes
Cor: Samanta do Amaral, ABC, DAFB
Desenho de som e trilha sonora original: O Grivo
Trilha sonora teatro: Peri Pane e Pontogor
Direção de arte e figurino: Marcelo X e Clarisse Valadares
Realização: Bebinho Salgado
Distribuição e produção associada: Descoloniza Filmes

O filme foi realizado com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual – FSA, da Lei Paulo Gustavo – LPG Pernambuco e do REC Cultural.

Elenco de Telúrica, a Íntima Utopia

O elenco reúne integrantes da Cia Ueinzz e convidados.

Entre os nomes estão Aécio Cardoso, Amélia Montero de Melo, Ana Carmen Del Collado, Ana Goldenstein Carvalhaes, Carlos Balpa, Carolina Audjemian, Eduardo Lettiere, Erika Inforsato, Felipe Shimabukuro, Jayme Menezes, Leonardo Lui, Lucas Natan, Luan Bittencourt, Marco Antônio Machado, Marcos Brito Marabelli, Marcos dos Santos, Marina Borgiani, Neith Petry Barros Martinha, Onés Cervelin, Paula Francisquetti, Paulo Dersu, Peri Pane, Peter Pál Pelbart, Pontogor, Rodrigo Sano, Rosana Judkovitch, Sofia Hellmeister, Valéria Felippe Manzalli e Vivi Bento.

Além disso, o filme conta com participação especial da filósofa Juliana Fausto.

Sobre Mariana Lacerda

Mariana Lacerda é uma realizadora recifense com pesquisas ligadas à relação entre cinema e artes visuais.

Sua obra também atravessa temas como Antropoceno, mudanças climáticas, Amazônia e perspectivas mais que humanas, envolvendo animais, plantas e biomas.

Entre seus trabalhos estão “Gyuri” (2020), “Eu Sou uma Arara” (2023) e “Mapear Mundos” (2024). Além disso, Mariana dirigiu a série infantil “Histórias de Fantasmas Verdadeiros para Crianças” e curtas como “Menino-aranha”, “A Vida Noturna das Igrejas de Olinda” e “Baleia Magic Park”.

Em 2026, a realizadora também se dedica à produção de seu terceiro longa-metragem, “Aña”.

Sobre a Descoloniza Filmes

A Descoloniza Filmes nasceu em 2017 com uma proposta ligada à descolonização do pensamento, à valorização de novas linguagens e à circulação de novas vozes no cinema.

Dirigida por Ibirá Machado, a distribuidora prioriza obras dirigidas por mulheres e com foco na desregionalização da produção.

Além disso, a empresa se apresenta como um ponto de encontro para discussões que contribuam para novas formas de pensar e reconstruir a sociedade.

Serviço

Filme: Telúrica, a Íntima Utopia
Direção: Mariana Lacerda
País: Brasil
Ano: 2026
Duração: 104 minutos
Gênero: Documentário
Festival: 15º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba
Mostra: Competição Brasileira de Longas-Metragens
Local: Museu Oscar Niemeyer – MON, Curitiba/PR
Acessibilidade: Libras, legenda descritiva e audiodescrição

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