A mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado começou e, sinceramente, começou muito bem. Feito Pipa, de Allan Deberton, foi o primeiro longa da competição que assisti e eu ainda estou completamente impactada pela delicadeza desse filme.

Uma palavra ficou na minha cabeça quando a sessão terminou: sensibilidade.
É um filme poético, bonito, delicado e que consegue falar sobre assuntos enormes sem precisar gritar para ser ouvido. Identidade, liberdade, preconceito, família, pertencimento, envelhecimento e Alzheimer estão presentes em uma história que, acima de tudo, fala sobre o direito de uma criança simplesmente ser quem ela é.
E talvez seja justamente por isso que tenha me emocionado tanto.
Uma história sobre crescer tendo o direito de ser quem você é
Gugu, interpretado por Yuri Gomes, é um menino de quase 12 anos criado pela avó Dilma, vivida por Teca Pereira. Ele sonha em ser jogador de futebol, mas também está descobrindo a própria identidade e crescendo livremente ao lado de uma avó que o ama exatamente como ele é.
Só que essa liberdade começa a ser ameaçada.
Dilma passa a apresentar sinais de Alzheimer e Gugu percebe que, caso a situação seja descoberta, poderá ser obrigado a morar com Batista, seu pai, interpretado por Lázaro Ramos.
E existe uma frase, uma ideia, uma postura do pai que me incomodou muito justamente porque é algo que ainda ouvimos por aí: como se o jeito de Gugu fosse consequência de ele ter sido criado pela avó.
Como se alguém precisasse ser “culpado” pela identidade daquela criança.
A partir daí, Feito Pipa acompanha esse menino tentando preservar a vida que conhece enquanto precisa lidar com coisas grandes demais para a idade dele. O medo de perder a avó, o bullying, a relação difícil com o pai, a própria identidade e, ao mesmo tempo, os sonhos que continuam existindo.
Gugu quer jogar futebol. Quer brincar. Quer sonhar. Quer existir.

E deveria ser simples assim.
O filme não transforma sua identidade em um grande espetáculo. Pelo contrário. Existe uma naturalidade muito bonita na construção desse personagem. Ele é uma criança queer, mas também é um menino cheio de sonhos, personalidade, desejos, medos, força e vulnerabilidades.
Ele simplesmente é Gugu.
E eu achei isso lindo.
Yuri Gomes e Teca Pereira são o coração de Feito Pipa
A relação entre Gugu e Dilma foi uma das coisas que mais me conquistaram.
Yuri Gomes está maravilhoso. Existe uma espontaneidade na atuação dele que faz Gugu parecer completamente vivo. Você consegue sentir quando ele está feliz, quando está com medo, quando tenta esconder alguma coisa e, principalmente, quando percebe que aquele porto seguro representado pela avó pode não existir para sempre.

E Teca Pereira é outro presente do filme.
A sintonia entre os dois é tão bonita que, em vários momentos, você esquece que está vendo dois atores interpretando personagens. Parece realmente uma relação entre avó e neto.
É afeto.
E quando o Alzheimer começa a atravessar essa relação, a história ganha outra camada de dor.
Porque Gugu não está apenas com medo de perder a liberdade. Ele está percebendo que pode perder a pessoa que sempre permitiu que ele fosse livre.
Feito Pipa entende que algumas das maiores dores da vida não precisam ser apresentadas de maneira exagerada. Às vezes elas estão em um olhar, numa mudança de comportamento, numa memória que começa a desaparecer ou naquele medo silencioso de perceber que alguma coisa está mudando e não existe muito o que fazer para impedir.
É justamente essa sutileza que faz o filme funcionar tão bem.
A fotografia também me chamou muito a atenção. Filmado em Quixadá, no interior do Ceará, Feito Pipa utiliza aquela paisagem de uma maneira muito bonita. Existe simplicidade, mas existe também profundidade.
O sertão não está ali apenas como cenário.
A seca, a barragem, as ruínas que aparecem quando a água baixa e aquela paisagem enorme dialogam o tempo inteiro com as memórias e com as transformações dos personagens.
E visualmente é lindo.
Tudo parece ter espaço para respirar.
Talvez seja por isso que eu tenha sentido tanto esse filme. A direção de Allan Deberton não parece ter pressa para explicar o que deveríamos sentir. Ele permite que a gente observe Gugu, Dilma e aquela família e tire nossas próprias conclusões.
E eu gosto muito quando o cinema confia no público dessa maneira.
Feito Pipa também chegou a Gramado depois de uma trajetória internacional impressionante. Na Berlinale 2026, conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Generation Kplus. Yuri Gomes ainda foi premiado por sua atuação no Festival de Cartagena e, no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, o longa venceu como Melhor Filme no Prêmio Maguey, enquanto Yuri Gomes e Teca Pereira receberam juntos o prêmio de Melhor Interpretação.
Depois de assistir, consigo entender perfeitamente todo esse reconhecimento.
Porque existe uma universalidade naquela história.
Não importa se estamos falando de uma criança no interior do Ceará. Estamos falando sobre família, sobre medo de perder quem amamos, sobre preconceito e, principalmente, sobre a necessidade de termos liberdade para descobrir quem somos.
E isso atravessa qualquer fronteira.
Saí da sessão pensando também em como precisamos assistir a mais filmes assim.
Filmes poéticos.
Filmes que tenham tempo para observar seus personagens.
Filmes que falem de identidade sem transformar identidade em um problema.
Filmes que consigam emocionar sem precisar forçar a emoção.
Depois de tantos dias vivendo o cinema brasileiro em festivais, eu percebo cada vez mais o quanto essas histórias conseguem ampliar o nosso olhar. E Feito Pipa é exatamente esse tipo de filme.
Eu me emocionei.
Me envolvi com Gugu e Dilma, fiquei encantada com as atuações, com a fotografia, com o roteiro e principalmente com a sensibilidade com que Allan Deberton decidiu contar essa história.
Se a competitiva de longas brasileiros do Festival de Cinema de Gramado começou assim, começou muito bem.
Minha nota: 5 de 5 estrelas.
Feito Pipa é daqueles filmes que terminam, mas continuam um pouquinho dentro da gente.
05 de novembro nos cinemas





