O Brasil saiu de Locarno com prêmio de novo. A Margem do Rio, primeiro longa da dupla pernambucana Matheus Farias e Enock Carvalho, levou o Prêmio Especial do Júri da Competição Internacional na 79ª edição do festival suíço.

E olha o tamanho do feito: um filme de estreia, disputando a seleção principal de Locarno com outros 16 longas.
O prêmio vem acompanhado de 30 mil francos suíços, divididos oficialmente entre direção e produção, o equivalente a pouco mais de R$ 190 mil na cotação do momento. O Leopardo de Ouro, o principal prêmio, ficou com You Don’t Belong Here, do romeno Florin Șerban.
O júri foi presidido pelo diretor belga Fabrice Du Welz, ao lado do produtor italiano Marco Alessi, das atrizes Lolita Chammah e Paulina García e do executivo Olivier Père, da Arte France Cinéma.
Sobre o que é o filme
A sinopse oficial apresenta Izaquiel, vivido por Caique Copque, como um jovem que trabalha como auxiliar de serviços gerais no Recife. À noite, ele frequenta secretamente o mangue em busca de encontros sexuais. É ali que conhece Jeremias, interpretado por Ítalo Martins, um pescador misterioso. Quando uma onda de violência invade aquele território, Jeremias conduz Izaquiel para dentro do manguezal.
Só que a sinopse é a superfície. O filme é bem mais do que um romance no mangue.
Izaquiel é um jovem negro e gay, marcado pela rejeição familiar e pela repressão religiosa. Ele vive com um grupo de mulheres trans que formaram para ele uma família escolhida. E, depois de perder um emprego, passa a trabalhar na limpeza de uma igreja evangélica pentecostal liderada por um pastor cuja família está ligada à política e a negócios locais.
É essa colisão que estrutura o longa: de um lado, a vida queer noturna, o desejo, a comunidade trans e o manguezal. Do outro, uma instituição religiosa organizada em torno de pureza, controle e poder político.
E tem uma camada de thriller muito mais forte do que o release sugere. A crítica internacional menciona assassinato, desaparecimento de homens gays, armas e uma atmosfera constante de ameaça. Não à toa, a MPM Premium não vende o filme como drama: comercializa como thriller erótico LGBTQ+ com realismo mágico tropical.
O mangue como personagem
Esse é o ponto que os diretores mais destacaram antes da estreia. Enock Carvalho foi direto ao dizer que “o mangue é um personagem do filme”.
Não é figura de linguagem. A equipe passou cinco noites filmando dentro do manguezal, submetida a maré, chuva e a um ambiente que não se deixa controlar. Em vez de dominar o espaço, a produção teve que responder ao comportamento dele. Parte do resultado visual nasceu desse confronto.
A água acaba virando o símbolo central do filme, e num paralelismo muito bem construído: ela está no mangue, na vida do pescador Jeremias e também dentro da igreja, no batismo. De um lado, água como purificação e renascimento. Do outro, água como natureza, desejo e pertencimento.
A pergunta que o filme deixa: quem oferece salvação a Izaquiel, a igreja ou o mangue?
O que a crítica está dizendo
A recepção em Locarno foi majoritariamente positiva, mas com ressalvas honestas. E vale registrar as duas coisas.
O Cineuropa foi entusiasmado. Tratou o longa como obra potente que mistura hiper-realismo e sonho, elogiou os dois protagonistas e destacou a coragem do filme ao abordar violência, religião, homofobia, transfobia e poder. A publicação considera o filme difícil de classificar e enxerga isso como virtude: seria uma obra queer não só pelo tema, mas pela própria recusa a caber numa categoria.
Diego Batlle, do Otros Cines, foi mais ambivalente. Achou o filme provocador e envolvente, mas avaliou que a quantidade de temas em quase duas horas faz com que trechos soem pretensiosos ou maniqueístas. Ainda assim, apontou a relação entre Izaquiel e Jeremias como o eixo de esperança do longa.
O Journey Into Cinema também identificou irregularidade de tom, justamente porque o filme atravessa thriller erótico, investigação, drama religioso, noir tropical e realismo mágico. Mas leu essa imprevisibilidade como parte do interesse da obra.
Resumindo com honestidade: não é um filme fácil nem unânime. É uma estreia ambiciosa que tenta colocar muita coisa dentro da mesma obra. E isso, para quem gosta de cinema, costuma ser mais interessante do que consenso.
A conexão com O Agente Secreto
Esse detalhe conecta o filme ao momento mais visível do cinema brasileiro.
Matheus Farias, um dos diretores, é o montador de O Agente Secreto e de Retratos Fantasmas, ambos de Kleber Mendonça Filho. E não para aí: Ítalo Martins, protagonista de A Margem do Rio, também está em O Agente Secreto, assim como Robério Diógenes e Carlos Francisco, que integram o elenco do longa premiado.
Os diretores conheceram Ítalo justamente durante a produção do filme de Kleber. Quando ele fez teste ao lado de Caique Copque, segundo Enock, a química apareceu na hora.
O diretor artístico de Locarno, Giona A. Nazzaro, chegou a citar A Margem do Rio entre os filmes da seleção que mais lhe davam satisfação, mencionando a proximidade dos realizadores com o ecossistema de Kleber Mendonça Filho.
Ou seja: Recife não mandou um filme para Locarno. Mandou uma geração.
Onde assistir A Margem do Rio
Aqui vai a resposta direta, sem enrolação: ainda não dá para assistir no Brasil.
Até 15 de agosto de 2026 não há data de estreia comercial anunciada nem plataforma de streaming confirmada. A Vitrine Filmes está confirmada como distribuidora nacional, e o filme deve seguir circulando por festivais internacionais antes de chegar ao circuito brasileiro. Antes de Locarno, Enock Carvalho já falava em convites que ainda não podiam ser revelados.
Perguntas frequentes
Que prêmio A Margem do Rio ganhou em Locarno? O Prêmio Especial do Júri da Competição Internacional, um dos três principais prêmios da seleção, acompanhado de 30 mil francos suíços divididos entre direção e produção.
Onde assistir A Margem do Rio? O filme ainda não tem data de estreia comercial no Brasil. Será distribuído pela Vitrine Filmes.
Quem dirigiu A Margem do Rio? Matheus Farias e Enock Carvalho, dupla pernambucana que assina também o roteiro. É o primeiro longa dos dois.
Onde o filme foi gravado? No Recife, entre julho e setembro de 2025, com cenas rodadas dentro do manguezal.
Qual o gênero de A Margem do Rio? É comercializado internacionalmente como thriller erótico queer com realismo mágico tropical, misturando suspense, drama social e romance.





