Antártida foi o filme escolhido para a abertura do 54º Festival de Cinema de Gramado, e essa crítica do filme Antártida parte justamente da experiência que tive durante essa primeira sessão do festival. Fui assistir com bastante curiosidade, principalmente pela temática e pelo elenco. Dirigido por Bruno Safadi, o longa reúne Marina Ruy Barbosa, Leandra Leal, Lázaro Ramos, Andrea Beltrão e Antonio Calloni em uma história que coloca violência contra a mulher, abuso e relações de poder dentro de um dos ambientes mais isolados do planeta.

E talvez justamente por falar sobre assuntos tão fortes, eu tenha terminado o filme esperando sentir mais.
A história se passa em uma estação de pesquisa brasileira na Antártida, onde cientistas e militares precisam conviver durante um período de isolamento. Marina, personagem de Leandra Leal, é médica da estação, enquanto Inês, vivida por Marina Ruy Barbosa, é uma pesquisadora que sofre um crime logo no início da história.
A partir dali, aquele ambiente que já é naturalmente hostil começa a ficar ainda mais sufocante. Só que não necessariamente por causa do frio ou do isolamento.
O que passa a incomodar é a convivência.
É a forma como diferentes personagens reagem ao que aconteceu. É a hierarquia daquele espaço. É quem acredita, quem questiona, quem se posiciona e, principalmente, quem prefere continuar vivendo como se determinadas coisas pudessem simplesmente ser deixadas para trás.
Quando uma temática tão forte chega de maneira fria
Violência contra a mulher é uma pauta que mexe comigo. E acredito que mexa de maneira diferente com muitas mulheres justamente porque não estamos falando de uma realidade distante.
O filme aborda agressão física, violência sexual, abuso de poder e até as consequências mais extremas que esse tipo de violência pode provocar.
Por isso, enquanto assistia, fiquei esperando uma indignação que, para mim, nunca chegou completamente.
Existe uma história envolvendo uma mãe que perdeu a própria filha depois de uma violência brutal. Existe Inês, que precisa lidar não apenas com aquilo que sofreu, mas com o fato de continuar naquele ambiente, convivendo com pessoas diretamente relacionadas ao seu trauma.
São situações muito pesadas.
E, mesmo assim, não senti por completo o incomodo que eu esperava. Com certeza os atores, atuando, gravando sentiram dores que pessoas que estão assistindo não vão sentir, são perspectivas diferentes, mas ao mesmo tempo não é algo impossível de se transmitir através da tela do cinema.
As pessoas precisam “sentir” o que é ser abusada em um ambiente dito cujo “seguro”.

Talvez alguém possa argumentar que justamente essa frieza seja proposital. Estamos em uma base militar, na Antártida, cercados por personagens treinados para manter determinada postura. Eu consigo compreender essa leitura.
Mas, para mim, emocionalmente não funcionou por inteiro.
Não estou dizendo que precisava existir gritaria o tempo todo, cenas exageradas ou personagens constantemente em colapso. Sensibilidade não significa necessariamente transformar tudo em melodrama.
O que senti falta foi de peso.
De sentir que determinadas ações realmente deixaram marcas profundas naquelas pessoas.
Em alguns momentos, tive a sensação de que acontecimentos gravíssimos eram apresentados, discutidos e, pouco depois, a história simplesmente continuava. E isso me causou um incômodo maior do que provavelmente deveria.
Porque, quando falamos de violência contra uma mulher, não basta apenas colocar o assunto dentro da história. Para mim, também importa a maneira como essa violência reverbera nos personagens e no próprio filme.
O isolamento funciona, mas alguns detalhes me tiraram da história
Ao mesmo tempo, existe uma ideia muito interessante em Antártida: colocar essas pessoas em um lugar de onde praticamente ninguém pode fugir.
Não existe simplesmente abrir a porta e ir embora.
Elas precisam continuar convivendo.
E quando colocamos abuso, medo, culpa, hierarquia, silêncio e relações de poder dentro de um espaço tão isolado, temos uma premissa extremamente forte.
Gostei dessa proposta.
Também acho importante que o cinema brasileiro continue trazendo histórias sobre violência contra a mulher e questionando essa estrutura na qual alguns homens ainda se sentem no direito de ultrapassar limites, insistir, questionar um “não” ou agir como se tivessem algum tipo de poder sobre o corpo e as decisões de uma mulher.
O filme traz isso.
E é importante que traga.
Percebi questões de continuidade que me incomodaram. Há personagens passando por um desgaste físico enorme e, pouco depois, aparentemente recuperados e caminhando normalmente. O figurino também me chamou atenção em determinadas cenas. Estamos falando da Antártida e, mesmo considerando os ambientes internos e climatizados da estação, houve momentos em que a sensação de frio simplesmente desapareceu para mim.
Pode parecer detalhe, mas quando o próprio ambiente é praticamente mais um personagem da história, esses detalhes ajudam muito na imersão.
E eu queria sentir mais a Antártida.
Queria sentir aquele frio, o isolamento, o desgaste e a sensação de estar presa naquele lugar junto com aquelas pessoas.
Nas atuações, também fiquei esperando um pouco mais de entrega emocional em alguns momentos. Não por falta de talento do elenco, muito pelo contrário. Estamos falando de atores que já vimos entregando trabalhos excelentes. Mas justamente pela gravidade de determinadas revelações, senti algumas reações mais contidas do que eu esperava.
E talvez seja essa a palavra que mais define minha experiência: contida.
O filme fala sobre coisas enormes, mas nem sempre elas chegaram enormes até mim.
Ainda assim, existe algo em Antártida que considero muito importante.
Ele provoca conversa.
Saí da sessão conversando sobre o filme. Ouvi pessoas que não gostaram, pessoas que tiveram questões parecidas com as minhas e também fui abordada por uma pessoa da cidade de Gramado que simplesmente amou e queria que mais gente assistisse justamente pela importância da temática.
E cinema também é isso.
Eu não preciso sair de uma sessão considerando aquele filme perfeito para reconhecer a importância da discussão que ele propõe e da beleza de toda a produção, porque eu mencionei que tudo aquilo foi gravado em um estúdio no Rio de Janeiro?
Talvez outras mulheres assistam e sintam completamente diferente de mim. Talvez alguém enxergue justamente nessa frieza algo que eu não consegui enxergar. E tudo bem.
A minha experiência foi a de assistir a uma história com uma pauta extremamente necessária e uma premissa muito interessante, mas que poderia ter ido emocionalmente muito mais longe.
Porque quando um filme fala sobre mulheres violentadas, sobre homens que ultrapassam limites e sobre uma estrutura que muitas vezes protege, silencia ou minimiza determinadas atitudes, ele está falando sobre algo que infelizmente não termina quando as luzes da sala de cinema acendem.
E talvez seja exatamente por isso que eu tenha desejado mais intensidade.
Não para transformar Antártida em outro filme.
Mas porque a história que ele escolheu contar é forte demais para passar por nós sem deixar algum tipo de marca.
Antártida estreia nos cinemas brasileiros em 17 de setembro de 2026.





