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Teatro

Dias Felizes no Festival de Curitiba 2026: Armazém encena Beckett no Guairinha

  • fevereiro 16, 2026
  • Sarah Chanan

“Entre o riso e a ruína, o espetáculo constrói um jogo cruel e fascinante, onde cada palavra dita ressoa como um eco entre a esperança e o delírio.”
Essa frase não é só um gancho bonito. Ela é, honestamente, um mapa.

Dias Felizes - Festival de Curitiba 2026 - Foto: Paulo de Moraes
Dias Felizes – Festival de Curitiba 2026 – Foto: Paulo de Moraes

Porque Dias Felizes, clássico de Samuel Beckett, na montagem da Armazém Companhia de Teatro com direção de Paulo de Moraes, tem esse efeito: você dá uma risada (às vezes sem querer), e um segundo depois percebe que o riso veio junto com uma sensação meio seca na garganta. Como se a peça te lembrasse, com delicadeza nenhuma, que a gente também se acostuma a sobreviver no automático.

E aí vem a notícia que importa: a montagem está programada no Festival de Curitiba 2026, no Guairinha (Teatro Guaíra), nos dias 03 e 04 de abril de 2026, às 20h30.

Beckett sendo Beckett: o humor não vem pra aliviar

A peça (conhecida também como Happy Days / Oh les beaux jours) foi encenada pela primeira vez em 1961 e virou um tipo de “teste de resistência”. Do corpo, da linguagem, da atenção… e daquela nossa mania bem humana de fingir que está tudo normal quando já não está.

A história é simples e absurda ao mesmo tempo, como tudo que funciona em Beckett.

Winnie aparece soterrada: primeiro até a cintura, depois até o pescoço. E o que ela faz? Ela insiste. Ela fala. Ela repete. Ela organiza o dia como se organizar o dia fosse organizar a própria sanidade.

E ela se agarra ao que cabe na bolsa: objetos pequenos, cotidianos, escova, batom, espelho e um elemento que muda a temperatura da cena, porque não é “só mais um objeto”: um revólver. Quieto. Ali. Como ameaça e como possibilidade. Como se a peça deixasse essa pergunta rondando o tempo inteiro, sem precisar gritar.

Winnie não está sozinha… mas quase

O detalhe mais cruel (e, por isso mesmo, mais humano) é que Winnie não vive esse colapso em total solidão, mas é quase isso.

Dias Felizes - Festival de Curitiba 2026 - Foto: Paulo de Moraes
Dias Felizes – Festival de Curitiba 2026 – Foto: Paulo de Moraes

Existe Willie, um companheiro “improvável”, uma presença lacunar, silenciosa, intermitente. Alguém que está ali e, ao mesmo tempo, não está.

Na montagem da Armazém, ele é interpretado em alternância por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes, o que também mexe com a percepção do público sobre presença, ausência, companhia e abandono. Porque, às vezes, não é o silêncio que pesa: é o tipo de presença que não alcança.

O que a Armazém faz com Beckett

A Armazém monta Beckett como quem acende uma luz incômoda no meio da poeira. A direção de Paulo de Moraes trata o espaço como um organismo hostil: um deserto inclinado, instável, uma paisagem que recusa conforto.

E tem uma escolha que faz essa montagem conversar muito com o agora: sem trair o texto, o espetáculo atualiza o eco histórico da peça. Se por décadas a imagem do deserto podia dialogar com paranoia de catástrofe nuclear, aqui o deserto parece conversar com o nosso tempo de um jeito quase físico: a sensação de secura, de exaustão, de tempo derretendo. Aquela coisa de você olhar o mundo e pensar “é… tem alguma coisa fora do lugar faz tempo”.aw

O que crítica e público já destacaram (e por que faz sentido)

As leituras sobre a montagem costumam convergir em pontos bem específicos, e dá pra entender por quê.

Tem gente que destaca o impacto do dispositivo cênico: a cena não se “explica” de cara, e isso faz parte do jogo. Você assimila a condição de Winnie ao mesmo tempo em que ela tenta normalizar o impossível.

Outras análises chamam atenção para Beckett como mergulho no vazio: a linguagem como ferramenta de sobrevivência e, ao mesmo tempo, como autoengano. A palavra que salva e que engana. A palavra que sustenta e que mascara.

E tem um dado bem concreto, bem objetivo, que hoje não dá pra ignorar quando a gente fala de teatro: a própria Armazém e parceiros divulgaram que mais de 6 mil espectadores já assistiram à montagem.

Além disso, a temporada repercutiu em circuito de premiação: a companhia divulgou indicações ao Prêmio APTR, incluindo Melhor Atriz (Patrícia Selonk) e Melhor Cenografia (Carla Berri e Paulo de Moraes).

  • A crítica Tania Brandão, no Folias Teatrais, destaca o desempenho de Patrícia Selonk como “corajoso e resoluto” e chama a montagem de “acontecimento teatral de rara beleza”.
  • Wagner Corrêa de Araújo, no Escrituras Cênicas, comenta a atualização do clima da peça e cita a montagem como uma experiência que amplifica a “intuição do absurdo”, com tradução de Jopa Moraes e ressonâncias de catástrofe ambiental.
  • Já André Queiroz, em A Nova Democracia, descreve o espetáculo como uma convocação ao “desequilíbrio” e ao “desassossego”, reforçando essa sensação de que a plateia também fica presa na engrenagem do tempo beckettiano.

Leia também:

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