Você já sofreu por alguém que ainda não morreu?
É com essa pergunta que a diretora Pepa Lubojacki abre Se pombos virassem ouro, exibido na Competitiva Internacional do Olhar de Cinema. E já nesse primeiro movimento o filme deixa claro que não pretende tratar o alcoolismo apenas como um tema social, distante ou estatístico. Aqui, o vício é uma ferida íntima. É memória familiar. É medo, cuidado, raiva, culpa e amor tentando existir no mesmo lugar.

No documentário, Pepa explora a luta geracional de sua família contra o alcoolismo a partir de uma perspectiva profundamente pessoal. O filme mistura imagens documentais, ritmo quase de vlog, textos na tela, stickers, arquivos de família e imagens aprimoradas por inteligência artificial para criar um retrato dos impactos do vício.
E o mais bonito é que essa mistura de linguagens não parece um enfeite. Ela nasce da própria tentativa de entender uma dor que não cabe em uma forma só.
Um filme construído com tempo
Se pombos virassem ouro não segue uma estrutura tradicional. O filme foi construído ao longo dos anos, com imagens gravadas desde 2013, fotos, objetos, registros familiares e mais de 200 horas de arquivos.
A sensação é de acompanhar um diário que foi amadurecendo com o tempo. As imagens têm algo de íntimo, quase caseiro, mas a montagem transforma esse material em cinema. E isso é uma das grandes forças do longa: ele tem cara de documentário, mas ritmo de filme. Tem linguagem atual, próxima, quase como um vlog do YouTube daqueles que você começa sem saber exatamente para onde vai e, quando percebe, já está completamente envolvido.
A diretora, que também assina o roteiro e a montagem, consegue conduzir esse acúmulo de memórias sem deixar o filme se perder. Pelo contrário: cada fragmento parece tentar responder a uma pergunta maior, mesmo que a resposta nunca venha de forma simples.
De quem é a culpa quando alguém se perde no vício?
Ao longo do filme, Pepa tenta entender os impactos do alcoolismo em sua família e, principalmente, encarar uma pergunta que muita gente que convive com a dependência química já se fez: de quem é a culpa?
É da pessoa que bebe? Da família que não conseguiu impedir? Da dor que veio antes? Da química do corpo? Da herança emocional? Do ambiente? Do silêncio?
O documentário não trata essa questão de forma rasa. Ele entende que o vício não cabe em uma única explicação. Em alguns momentos, o filme apresenta de forma simples e direta o que acontece no corpo de uma pessoa viciada e por que é tão difícil largar o álcool, as drogas ou qualquer substância que se torna um mecanismo de sobrevivência.
Mas a força do filme não está só na explicação. Está no afeto.
Pepa não olha para seus familiares de fora. Ela está dentro da história. Ela quer entender, mas também quer mudar o destino de quem ama. Quer ajudar o irmão. Quer que os primos consigam se livrar do vício. Quer, de alguma forma, impedir que a história do pai, que morreu por causa da bebida, se repita em outras vidas da família.
E talvez seja justamente isso que doa tanto: a percepção de que amar alguém não significa conseguir salvá-lo.

Ao longo da narrativa, acompanhamos fases de luto, alegria, mudanças, recaídas e tentativas de recomeço. O filme cria uma proximidade tão grande com aquelas pessoas que, em vários momentos, a gente se pega esperando uma resposta: o irmão melhorou? Os primos conseguiram sair do vício? A família encontrou algum respiro?
Quando algo dá certo, sentimos alegria por eles. Quando algo desmorona, a tristeza chega junto.
Na minha sessão, o barulho do choro e dos soluços também fez parte do filme. E isso diz muito sobre a força da construção de Pepa. Seja por identificação direta, por memórias familiares ou pela forma como a diretora conduz a narrativa, Se pombos virassem ouro toca em um lugar muito comum e muito doloroso: o de quem já tentou salvar alguém que ama.
Aos poucos, o filme também mostra o amadurecimento da própria diretora. No começo, existe uma urgência de encontrar culpados, respostas e caminhos. Mas, conforme a obra avança, vamos entendendo junto com ela que existe um limite entre cuidado e controle.
Essa virada é muito bonita porque não vem como uma lição pronta. Ela nasce da convivência, das tentativas, das recaídas e da própria montagem.
Visualmente, o documentário chama atenção por combinar diferentes recursos sem perder o centro emocional. As imagens aprimoradas por inteligência artificial ajudam a criar retratos ligados ao vício, à memória e às sensações que atravessam aquela família. Já os textos e elementos gráficos aproximam o filme de uma linguagem contemporânea, quase digital, sem transformar a dor em estética vazia.
Essa escolha combina com a trajetória de Pepa Lubojacki, roteirista e diretora de cinema documental baseada em Praga, cujo trabalho costuma se concentrar em temas como binariedade e estereótipos de gênero, vício e trauma intergeracional.
Aqui, ela transforma uma história familiar em algo maior, sem abandonar a intimidade. O filme nunca tenta falar por todas as famílias, mas justamente por ser tão específico, encontra uma dimensão universal.
Se pombos virassem ouro já chega ao Olhar de Cinema com um peso importante no circuito internacional. O filme venceu o Berlinale Documentary Award, prêmio principal de melhor documentário da Berlinale, e também recebeu o Caligari Film Award, concedido ao melhor filme da seção Fórum do festival. E dá para entender o motivo.
É um documentário que mistura coragem, vulnerabilidade e uma montagem muito precisa. Pepa Lubojacki transforma dor familiar em cinema sem explorar seus personagens e sem procurar respostas fáceis. Ela cria um filme íntimo, atual e profundamente humano, que consegue falar de alcoolismo, luto e cuidado com honestidade rara.
Veredito
Se pombos virassem ouro foi, sem dúvidas, um dos filmes mais fortes que eu vi no festival até agora. Talvez até o meu preferido da edição neste momento. É uma obra que emociona não porque força a lágrima, mas porque constrói uma relação real com quem assiste.
O filme fala sobre vício, mas também sobre impotência, amor, herança familiar, trauma e o desejo quase impossível de mudar o destino de quem a gente ama. Pepa Lubojacki entrega um documentário de muita personalidade, com linguagem atual, montagem sensível e um final incrível, que arrancou palmas ao fim da sessão.
Na minha humilde opinião, é um dos grandes favoritos da Competitiva Internacional.
E sobre o título? Bom, Se pombos virassem ouro é daqueles nomes que fazem a gente pensar: “o que exatamente eu estou prestes a assistir?”. Mas essa é uma das graças do filme. A referência não é entregue de bandeja, você precisa acompanhar a história para entender. E quando entende, o título ganha outro peso, quase como uma pequena chave emocional para tudo que Pepa Lubojacki está tentando dizer.
Sinopse:
Uma mulher explora a luta geracional de sua família contra o alcoolismo através de uma perspectiva profundamente pessoal, misturando imagens documentais, ritmo, texto e imagens aprimoradas por IA para criar um retrato honesto e compassivo dos impactos do vício.






