Uma palavra veio na minha cabeça assim que o filme terminou: sensível.
Mas, pensando bem, talvez essa palavra ainda seja pequena demais para explicar o que “Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha” fez comigo durante seus 92 minutos. Porque não é só sensibilidade. É conexão. É identificação. É aquele tipo de filme que parece pegar você pela mão e fazer viver, através dos personagens, dores, sonhos, perdas e ausências que, mesmo quando não são exatamente iguais às nossas, ainda assim encontram um lugar dentro da gente.

Eu me peguei com os olhos cheios de lágrimas em vários momentos. Não porque eu tenha uma história parecida com a de Rosa e Dalva, interpretadas de forma lindíssima por Verônica Cavalcanti e Luciana Souza, mas porque existe algo profundamente humano nesse filme. Algo que atravessa.
Dirigido por Janaína Marques, o filme, vencedor do prêmio de Melhor Longa da Competitiva Brasileira no Olhar de Cinema, me emocionou ainda mais ao ver também o reconhecimento das atrizes, que levaram o prêmio de Melhor Atuação. Foi impossível não sentir felicidade vendo aquelas mulheres sendo celebradas. E talvez isso tenha mexido ainda mais comigo: mulheres vencendo, contando histórias potentes, emocionando pessoas e ocupando espaços. Isso me deixa extremamente feliz, porque somos capazes de criar coisas incríveis.
A história acompanha Rosa, uma mulher que vive carregando a ausência da mãe, Dalva, depois de perdê-la primeiro para a prisão e depois para a morte. A partir daí, o filme faz algo muito bonito: ele brinca com memória, imaginação e afeto de um jeito quase impossível de explicar sem estragar a experiência.
A grande pergunta do filme talvez seja: como reviver uma lembrança que você nunca viveu?
Porque, em muitos momentos, eu nem tinha percebido completamente o que estava acontecendo. Em nenhum momento inicial eu me dei conta de que Dalva não existia exatamente naquele plano em que a história parecia acontecer. Aos poucos, a narrativa vai revelando algo muito mais melancólico, doloroso e bonito ao mesmo tempo: uma filha tentando criar uma rota de fuga para lidar com o trauma da ausência.
Rosa vive quase um acerto de contas emocional com uma mãe que já não está ali. Ou talvez esteja, mas apenas na imaginação. Ou talvez a imaginação seja justamente a única forma de sobreviver à dor.
É um filme melancólico. Mas de uma melancolia bonita. Daquelas que apertam o peito sem destruir você completamente.
A personagem de Luciana Souza, Dalva transmite força, afeto e um acolhimento muito bonito, daquele tipo de pessoa que parece iluminar o ambiente só por estar ali. Mesmo diante de tudo o que envolve a história, ela mantém uma energia leve, espontânea e extremamente humana. Luciana entrega uma personagem tão cativante que, sem perceber, a gente já está completamente envolvida por ela. Já Verônica Cavalcanti carrega um peso emocional enorme. Sua Rosa parece viver permanentemente tentando entender onde termina a memória e onde começa a saudade.

O filme também traz uma força feminina muito bonita, principalmente porque quase não existe uma presença masculina acolhedora dentro da história. Quando os homens aparecem, muitas vezes surgem atravessados por uma toxicidade, sem compreender de fato a situação que levou Dalva à prisão. O longa toca na questão da violência doméstica e mostra como a atitude de Dalva muda completamente o rumo da sua vida. Não é algo aprofundado como investigação ou julgamento moral; o filme apresenta a fatalidade e deixa esse incômodo no ar. Mas existe ali uma questão muito forte: a mulher tendo que se posicionar para se defender de uma violência que não deveria existir.
E talvez seja justamente isso que mais tem me conquistado nesses anos vivendo o Olhar de Cinema: essa possibilidade de encontrar filmes experimentais, independentes, inovadores, que antes talvez eu nem assistisse. Depois de mais de quatro anos frequentando festivais e vivendo o cinema nacional de perto, eu realmente sinto que fui, de certa forma, “descolonizada”. Hoje eu valorizo o audiovisual brasileiro de um jeito que talvez eu não valorizasse antes.
E o cinema nordestino… meu Deus.
Que potência.
“Fiz Um Foguete Imaginando Que Você Vinha” mexeu ainda mais com meu olhar sobre cinema. Sobre o quanto o audiovisual brasileiro consegue falar da dor, do amor, do afeto e da ausência de um jeito muito particular.
Saí da sessão emocionada.
Porque no fim, esse é um filme sobre tentar encontrar respostas onde talvez só existam ausências.
E talvez seja exatamente isso que torna tudo tão bonito.
Agora eu só fico me perguntando: quando será que esse filme vai ganhar data de estreia nos cinemas?
⭐ Nota: 4,5 de 5
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