Abrindo o Olhar de Cinema, Yellow Cake chegou sendo um tipo de filme que faz você pensar: “ok, eu realmente não sei para onde isso vai”. E isso pode ser algo muito bom ou um pouco confuso também.

O longa mistura ficção científica, comédia e um certo senso apocalíptico, tudo isso ambientado no sertão da Paraíba, mais precisamente na cidade de Picuí, onde cientistas americanos chegam com um plano no mínimo inusitado: utilizar urânio extraído da região para impedir a disseminação do mosquito Aedes aegypti.
Até a metade do filme eu estava completamente presa à história. Dei risada em vários momentos, fiquei tentando entender melhor aquele universo e, principalmente, fui muito impactada pela estética visual. As cores do filme chamam muita atenção. A fotografia é bonita, vibrante, e cria um contraste interessante com o ambiente seco do sertão.
É um filme que exige atenção desde o primeiro minuto. Não existe aquela apresentação clássica dos personagens ou da situação. Ele simplesmente começa, os cientistas já estão ali, as coisas já estão acontecendo e você precisa acompanhar. Se perder um detalhe, provavelmente vai ficar tentando montar o quebra-cabeça depois.
E isso eu até gostei.
Ao mesmo tempo, acho que Yellow Cake acaba se perdendo um pouco em algumas decisões de montagem. Em determinados momentos, eu fiquei com a sensação de estranhamento, não necessariamente de um jeito ruim, mas de um jeito confuso mesmo. Tem coisas que parecem não se encaixar totalmente. Uma hora o sertão está completamente seco, depois aparece extremamente verde. Existe uma justificativa sobre mudança de estação, mas depois outras informações da própria narrativa acabam me deixando pensando: “tá, mas isso aconteceu quando exatamente?”
Fiquei um pouco perdida.
Mas também não quero ser injusta com o filme, porque ele claramente está tentando fazer algo diferente dentro do cinema nacional, e isso eu valorizo bastante.
Falando do elenco, Tânia Maria, para mim, é um dos grandes destaques. Talvez seja influência de ter conhecido ela pessoalmente aqui no Festival Olhar de Cinema, mas aqui eu senti ela ainda mais confortável em cena. Existe uma espontaneidade muito bonita na atuação dela. A personagem transmite simpatia, quase do mesmo jeito que ela passa pessoalmente. Dá para perceber um cuidado do diretor em como conduzi-la, e isso funciona muito bem.
Já Rejane Faria, que eu gosto bastante como atriz, me deixou com a sensação de que a personagem poderia ter sido mais explorada. Não é uma atuação ruim, longe disso, mas senti faltar alguma coisa na construção dela.

Outra coisa que me marcou bastante foi o desconforto. E não só no sentido narrativo.
Entre humor, ficção científica e estranheza
As cenas envolvendo os mosquitos me incomodaram profundamente. Os closes, os enquadramentos, os ângulos… aquele pernilongo gigante, muito próximo da câmera, me deixou agoniada várias vezes. Existe um terror visual ali, quase corporal, que me pegou bastante.
E talvez essa seja a palavra do filme para mim: estranheza.
Também acho importante considerar uma coisa: estamos falando de um filme de aproximadamente R$ 3 milhões de orçamento, o que dentro da proposta de ficção científica brasileira já é um baita desafio. Então algumas limitações acabam sendo compreensíveis.
No fim, eu saí da sessão pensando que gostei da experiência, gostei da proposta e gostei de ver algo diferente sendo feito no cinema nacional. Mas também fiquei com a sensação de que algumas coisas poderiam estar um pouco mais organizadas narrativamente.
⭐ Nota: 3 de 5
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