Eu tenho que confessar que eu tentei escrever essa matéria sem me aprofundar muito em detalhes do longa “O Profeta”, mas em todas as vezes os Spoilers foram inevitáveis.
Neste sábado, 06 de junho, assisti ao longa O Profeta, filme da Competitiva Internacional do Olhar de Cinema 2026. A sinopse é curta, mas bastante direta: Um pastor bondoso, em conflito com a própria fé, busca ajuda em poderes obscuros, e tudo vai bem, até deixar de ir.

A história acompanha um pastor que simplesmente não consegue se conectar com os fiéis. Ele tem dificuldade de leitura, de fala e até de conduzir a leitura da Bíblia, e isso já fica muito claro logo no início. Em uma das primeiras cenas, vemos sua tentativa de pregação para uma igreja com menos de seis pessoas. Mesmo assim, ele mal consegue sustentar a celebração: uma pessoa dorme, outras conversam durante a leitura, e a sensação é de completo vazio.
O conflito central do personagem não vem exatamente de uma crise de crença. Ele não parece deixar de acreditar em sua fé. O problema é outro: ele não consegue exercê-la de forma que toque, motive ou mobilize as pessoas ao seu redor. E esse é um ponto interessante, porque, mesmo sendo um filme internacional, O Profeta dialoga muito com questionamentos e práticas que também fazem bastante sentido dentro da realidade brasileira.
Na tentativa de melhorar seu desempenho como pastor, ele vai em busca de poderes obscuros, embora o filme nunca deixe totalmente explícito qual é a força exata com a qual ele faz esse pacto. O que vemos são sinais e símbolos: a imagem de uma cobra, flashes de bodes, porcos, galinhas e outros animais. A lógica, no entanto, é bastante clara: ele fez um pacto e agora precisa cumprir sua parte, ou pagará pelas consequências.

A partir daí, começa a sacrificar animais, e os resultados aparecem rapidamente. A igreja enche. Milagres começam a acontecer. Doenças são curadas, problemas financeiros parecem ser resolvidos, e ele finalmente experimenta aquilo que antes parecia impossível: reconhecimento. Passa a ser admirado na cidade, ovacionado pelos fiéis, e esse sucesso preenche um vazio que antes o consumia. Mas o filme faz a pergunta certa o tempo inteiro: a que custo?
Com o tempo, o pastor passa a ter o sono perturbado por visões de pessoas mortas, bebês, imagens inquietantes e isso afeta diretamente sua paz. É aí que o pacto revela sua dimensão mais cruel: a entidade agora exige sangue humano.
Esse novo impasse empurra o protagonista para outra crise moral. Em determinado momento, durante uma pregação e na tentativa de curar um fiel, o pastor tenta realizar esse milagre, porém o homem acaba falecendo.
É realizado o cortejo desse fiel, que surge em forma de espírito em um lugar que parece representar algum tipo de além, narrando que agora seguirá vivo no coração de seus familiares. É uma cena que amplia a dimensão espiritual da narrativa e ajuda a fechar um dos eixos mais fortes do longa.
Como se trata de um filme da competitiva, a experiência de assistir também vem acompanhada de um peso maior: no fim da sessão, o público precisa votar de 1 a 4, sendo 1 a menor nota e 4 a maior. Isso naturalmente exige um olhar mais criterioso.
E aí entra a minha leitura do filme.
Eu não espero atuações hollywoodianas, grandes montagens ou efeitos especiais impecáveis, porque é evidente que estamos falando de uma produção de outro porte, provavelmente feita com orçamento reduzido e talvez até com pessoas sem grande experiência como atores. Então comecei o filme tentando não usar a atuação como critério principal. Só que, infelizmente, ela acaba afetando bastante o andamento da obra, principalmente nos diálogos. Isso faz com que um filme com pouco mais de 80 minutos pareça mais longo e mais arrastado do que realmente é.
O ritmo melhora na segunda metade. A montagem também muda um pouco. Na primeira parte, por exemplo, há uma cena de quase cinco minutos sem cortes mostrando apenas o protagonista levantando da cama e se vestindo para sair. Já na segunda metade, embora ainda existam planos longos, eles aparecem com outra energia, outra intenção estética, e isso ajuda o filme a respirar melhor.
Mesmo assim, o longa volta a perder força no final, mais uma vez por conta das atuações e do peso dos diálogos. E eu reforço: não estou comparando esse elenco a grandes produções nem cobrando um padrão de mercado inalcançável. Estou falando dentro da própria proposta do filme. Em vários momentos, senti que a interpretação não sustentava toda a densidade do que o roteiro queria comunicar.
Os takes longos e a ausência de trilha sonora em algumas cenas também me fizeram perder um pouco a conexão em determinados momentos. Mas eu sempre gosto de deixar claro: o que não funciona para mim não significa que não vá funcionar para você. Gosto, preferência, humor e repertório interferem muito na forma como cada pessoa recebe um filme.
Ainda assim, o roteiro é muito bom. A mensagem por trás da história é importante e trabalhada com bastante sutileza. O filme consegue falar de fé, poder, vaidade, manipulação e culpa sem partir para ofensas ou ataques diretos a qualquer crença. Isso, para mim, é um mérito grande.
No fim, O Profeta é uma obra com uma ideia forte, uma discussão relevante e uma proposta que chama atenção, é um filme que provoca reflexão e deixa tema para debate depois da sessão.






